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Grupos podem reunir conhecimentos que nenhuma pessoa possui sozinha. Mas juntar gente não produz automaticamente uma resposta melhor. Inteligência coletiva depende de diversidade, circulação de informação, coordenação e de uma condição especialmente frágil: evitar que todos errem na mesma direção.
O que é inteligência coletiva?
Inteligência coletiva é a capacidade de um grupo de combinar conhecimentos, habilidades e informações para resolver problemas, produzir conhecimento ou tomar decisões.
O filósofo Pierre Lévy ajudou a popularizar o conceito nos anos 1990, especialmente ao discutir as novas possibilidades de cooperação abertas pelas redes digitais.
Mas a inteligência coletiva é muito mais antiga que a internet.
- Uma equipe médica reúne especialidades diferentes.
- Uma comunidade acumula conhecimento sobre seu território.
- Pesquisadores distribuem tarefas.
- Trabalhadores compartilham experiências sobre um processo.
Nenhuma dessas situações exige que todos saibam as mesmas coisas.
Na verdade, parte da vantagem do grupo está justamente em saber coisas diferentes.
Inteligência coletiva e sabedoria das multidões são iguais?
Não exatamente.
A chamada sabedoria das multidões descreve situações em que várias pessoas fazem julgamentos relativamente independentes e suas respostas são posteriormente combinadas.
Imagine 100 pessoas tentando estimar quantos objetos existem dentro de um recipiente.
Algumas respostas ficam acima do valor correto. Outras, abaixo.
Em determinadas condições, agregar essas estimativas pode produzir um resultado bastante preciso.
A inteligência coletiva é um conceito mais amplo.
Pode envolver:
- agregação de respostas independentes;
- discussão;
- divisão de tarefas;
- especialização;
- revisão do trabalho de outras pessoas;
- construção conjunta de uma solução.
Uma revisão sobre a ciência de redes da inteligência coletiva mostra que o desenho da conversa pesa tanto quanto a competência de quem participa.
Então grupos são mais inteligentes que indivíduos?
Às vezes.
Essa é a parte que costuma desaparecer nas versões mais entusiasmadas do conceito.
Um grupo pode reunir:
- mais conhecimento;
- experiências diferentes;
- mais maneiras de interpretar um problema;
- maior capacidade para detectar erros.
Mas também pode produzir:
- conformismo;
- repetição;
- disputa por status;
- concentração da fala;
- confiança excessiva na maioria.
Portanto, não existe uma regra:
cinco pessoas pensam melhor que uma.
Depende de quem são essas pessoas e de como suas contribuições são organizadas.
O que pesquisas encontraram em pequenos grupos?
Em um estudo publicado na Science, Anita Woolley e colaboradores organizaram 699 participantes em grupos de duas a cinco pessoas e propuseram diferentes tipos de tarefa.
Os pesquisadores encontraram evidências de um fator de inteligência coletiva: grupos que funcionavam bem em determinado tipo de tarefa tendiam também a apresentar bom desempenho em outras.
Curiosamente, o desempenho coletivo não foi explicado simplesmente pela inteligência média ou pela presença da pessoa individualmente mais inteligente.
Entre os fatores associados ao melhor funcionamento apareceram:
- maior sensibilidade social;
- distribuição mais equilibrada dos turnos de fala.
O estudo completo é Evidence for a Collective Intelligence Factor in the Performance of Human Groups.
Isso não fornece uma receita para montar a “equipe perfeita”.
Mas sugere algo bastante útil:
ter pessoas capazes não basta se o grupo não consegue utilizar aquilo que elas sabem.
Diversidade ajuda. Mas precisa conseguir falar.
Imagine uma reunião com seis especialistas.
Cinco concordam rapidamente.
A sexta pessoa possui uma informação que poderia mostrar um problema na decisão, mas percebe que ninguém parece interessado em ouvi-la.
Tecnicamente, o grupo é diverso. Na prática, sua informação não entrou na solução.
Por isso, inteligência coletiva não depende apenas de quem está no grupo.
Depende também de:
- quem consegue participar;
- quais informações circulam;
- como divergências são tratadas;
- como as contribuições são combinadas.
Diversidade silenciosa produz pouco conhecimento coletivo.
E quando todos começam a olhar para os outros?
Aqui aparece um problema interessante.
Para que erros individuais se compensem, é útil que as pessoas tragam alguma informação própria.
Se todos observam primeiro a opinião predominante e depois ajustam sua resposta para acompanhá-la, as estimativas perdem a independência que fazia a média funcionar. É um efeito que a tecnologia amplia, porque mostra a opinião dos outros antes da sua.
Só que influência social também não é necessariamente ruim. Discussões podem permitir que alguém descubra uma informação que não possuía.
O problema é quando circular informação vira simplesmente repetir a maioria.
A internet tornou todo mundo coletivamente mais inteligente?
Não.
Ela tornou muito mais fácil conectar e agregar pessoas.
Isso permitiu projetos extraordinários:
- enciclopédias colaborativas;
- software de código aberto;
- ciência cidadã;
- bancos de conhecimento;
- comunidades de solução de problemas.
Mas a mesma infraestrutura também consegue espalhar o mesmo erro para milhões de pessoas.
Nas redes digitais, recomendações e relações sociais podem fazer indivíduos diferentes receberem informações bastante parecidas.
Isso reduz justamente uma das matérias-primas da inteligência coletiva: diferenças informacionais relevantes.
O tema aparece por outro ângulo em O algoritmo aprendeu com você – e agora te serve de volta, sobre personalização, filtros e a discussão em torno das chamadas câmaras de eco.
A tecnologia aumenta a escala da conexão.
Não garante a qualidade daquilo que circula por ela.
Quando vale confiar mais no grupo?
Não existe teste perfeito, mas algumas perguntas ajudam:
- As pessoas possuem conhecimentos diferentes?
- Conseguiram formar alguma opinião antes de conhecer a posição dominante?
- Discordar é permitido?
- Há alguém controlando quase toda a conversa?
- Existe um método para combinar as contribuições?
- As pessoas estão usando fontes independentes ou repetindo a mesma origem?
- O grupo consegue revisar uma conclusão depois de encontrar um erro?
Quanto mais respostas positivas, melhores são as condições para aproveitar aquilo que diferentes pessoas sabem.
Muita gente não é a mesma coisa que muita inteligência
Mil pessoas podem produzir um excelente resultado coletivo. Também podem compartilhar o mesmo boato mil vezes.
O número de participantes importa menos do que uma ideia mais difícil de preservar:
o grupo precisa reunir diferenças sem apagá-las antes da hora.
A inteligência coletiva não aparece quando todos pensam igual.
Aparece quando conhecimentos diferentes conseguem entrar na conversa, sobreviver ao confronto e contribuir para uma solução melhor.
Em resumo: muita gente junta acerta quando as opiniões são independentes e a discordância cabe na conversa. Se fez sentido, compartilhe este texto.