Black Mirror e vigilância: quem manda em alguém de quem se sabe tudo?

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Um implante que transmite o que os olhos veem, hackers com uma webcam, uma mãe com um tablet, uma rede social que sabe mais do que a polícia: em quatro episódios, Black Mirror mostra a vigilância como forma de poder.


Quando se fala em vigilância, a imagem mais comum é a de um governo observando todo mundo. Black Mirror quase sempre aproxima a câmera: quem vigia é um amigo, um desconhecido na internet, uma mãe, uma empresa de tecnologia.

Em quatro episódios, saber tudo sobre alguém vira uma forma de mandar nessa pessoa.

Os quatro episódios (com spoilers a partir daqui):

  • White Christmas (Natal, especial de 2014): implantes nos olhos transmitem o que a pessoa vê, e qualquer um pode ser bloqueado da vida real.
  • Shut Up and Dance (Manda Quem Pode, temporada 3, episódio 3): hackers invadem a webcam de um rapaz e começam a dar ordens.
  • Arkangel (temporada 4, episódio 2): uma mãe instala um implante para acompanhar tudo o que a filha vê e sente.
  • Smithereens (temporada 5, episódio 2): um motorista sequestra o funcionário de uma rede social para falar com o dono da empresa.

White Christmas: o que acontece quando dá para bloquear alguém da vida real?

White Christmas reúne várias histórias, e duas tecnologias se repetem nelas. A primeira é um implante nos olhos que transmite tudo o que a pessoa vê e ouve. Numa das histórias, um homem usa o recurso para orientar clientes em encontros amorosos, ao vivo, com uma plateia assistindo pela transmissão.

A segunda é o bloqueio. Com um gesto, alguém pode bloquear outra pessoa como se faz numa rede social. A diferença é que o bloqueio vale para o mundo real: quem foi bloqueado vê só uma silhueta cinza e ouve só ruído, e não consegue se comunicar.

Repare no que o bloqueio faz. Ele resolve um conflito sem conversa, de um lado só, e apaga a outra pessoa da paisagem. Num dos casos, o bloqueio separa um homem da mulher que amava e da criança que ele acreditava ser filha dele, e a história termina em tragédia.

No final, o próprio homem das transmissões recebe o castigo mais curioso da série: é bloqueado por todo mundo, para sempre. As duas tecnologias aparecem em histórias diferentes, mas fazem a mesma coisa: decidem quem pode ver quem.

Shut Up and Dance: até onde alguém vai para que um segredo não apareça?

Kenny é um rapaz tímido que trabalha numa lanchonete. Depois de baixar um programa no notebook, recebe uma mensagem: alguém gravou um vídeo dele pela webcam e vai divulgá-lo se ele não obedecer.

A partir daí, as ordens chegam por mensagem de texto. Kenny precisa entregar um bolo, encontrar um desconhecido também chantageado, assaltar um banco. As tarefas escalam, e ele nunca sabe quem está do outro lado.

E aqui vale prestar atenção no método. Os chantagistas nunca aparecem e nunca precisam encostar em ninguém. Basta saber um segredo e ter como espalhá-lo. O medo da exposição funciona como coleira: Kenny cumpre ordens absurdas porque a alternativa, para ele, parece pior do que qualquer tarefa.

O final é duplamente cruel. Os segredos são divulgados mesmo para quem obedeceu a tudo, e o episódio revela, só no fim, o que Kenny escondia, o que muda a forma de ver tudo o que veio antes.

Arkangel: proteger um filho dá direito de ver tudo?

Depois de perder a filha de vista por alguns minutos num parquinho, Marie aceita testar um implante chamado Arkangel. Pelo tablet, ela pode saber onde Sara está, ver o que a filha vê, acompanhar dados de saúde e até filtrar imagens que causem estresse à criança.

Tudo nasce do amor. O implante promete o que muitos pais desejam em algum momento: nunca mais perder um filho de vista. A atriz Rosemarie DeWitt, que vive Marie, observou que já daria para fazer uma versão do episódio com o que existe hoje, em entrevista à Variety.

Repare em quem vigia aqui. Diferente dos outros três episódios, a vigilância vem de dentro de casa, de quem mais quer bem à pessoa vigiada. O que acontece quando Sara cresce, e Marie volta a olhar pelo tablet, fica para a análise de Arkangel.

Smithereens: quem sabe mais sobre você, a polícia ou a rede social?

Chris é motorista de aplicativo. Um dia, sequestra um passageiro que trabalha numa grande rede social e exige falar com o fundador da empresa.

A polícia cerca o carro, mas quem descobre primeiro quem é Chris é a própria empresa. Em minutos, os funcionários sabem nome, histórico e vínculos dele, e repassam tudo aos policiais. Repare na ironia: a empresa que sabe tudo sobre Chris nunca soube o que uma notificação fez com a vida dele.

Quando o fundador finalmente atende, Chris conta o motivo: anos antes, olhava uma notificação do aplicativo enquanto dirigia, no momento do acidente que matou a noiva dele. O fundador admite que a rede foi desenhada para ser o mais viciante possível. Esse modelo, em que a atenção vira mercadoria, é o assunto do texto sobre O Dilema das Redes.

Brooker contou à Den of Geek que o final é ambíguo de propósito. A última imagem mostra pessoas pelo mundo vendo a notícia no celular e seguindo a rolagem.

O que Black Mirror diz sobre vigilância?

Lidos juntos, os quatro episódios mostram vigilâncias diferentes, cada uma com um tipo de poder:

  • O implante compartilhado, em White Christmas, que transforma a vida privada em transmissão e o bloqueio em sentença.
  • O desconhecido com um segredo, em Shut Up and Dance, que governa pela ameaça.
  • A mãe com um tablet, em Arkangel, que vigia por amor e controla do mesmo jeito.
  • A empresa com dados, em Smithereens, que sabe mais do que a polícia e prende pela atenção.

O ponto em comum é a assimetria. Quem vigia sabe tudo, e quem é vigiado quase nunca sabe quanto está sendo visto. No mundo real, essa assimetria aparece em técnicas que identificam uma pessoa sem que ela perceba, como mostra o texto sobre browser fingerprinting.

E há outro detalhe que se repete. Em todos os casos, a vigilância promete alguma coisa em troca: ajuda, segredo guardado, segurança, conexão. É por isso que tanta gente aceita. Quem é vigiado, aliás, nem sempre percebe o que perdeu: Sara cresce achando que o mundo é borrado assim mesmo.


Black Mirror costuma ser lida como uma série sobre câmeras e telas. Nestes quatro episódios, o que assusta é a relação que se forma entre quem vê tudo e quem é visto. A tecnologia só amplia o alcance de quem já tinha poder sobre o outro.

Arkangel é o caso mais próximo de casa, porque quem vigia é uma mãe, e ganhou uma análise própria. Os outros temas estão reunidos na página sobre Black Mirror.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – qual dessas formas de vigilância parece mais perto da sua rotina?

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