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Depois de perder a filha de vista por alguns minutos, Marie instala nela um implante que mostra tudo o que a menina vê. Em Arkangel, Black Mirror pergunta onde termina o cuidado e começa o controle.
Arkangel é o segundo episódio da quarta temporada de Black Mirror e tem um detalhe que chama atenção nos créditos: a direção é de Jodie Foster. Rosemarie DeWitt vive Marie, uma mãe sozinha que quer proteger a filha de tudo.
O episódio só revela o tamanho do problema no final. Daqui em diante, o texto conta tudo.
Do que se trata Arkangel?
Sara tem três anos quando some por alguns minutos num parquinho. Marie a encontra, mas o susto fica. Pouco depois, ela aceita testar um sistema chamado Arkangel, instalado na criança por meio de um implante.
Pelo tablet, Marie ganha acesso a quase tudo:
- a localização da filha, a qualquer momento;
- o que Sara vê e ouve, ao vivo ou em gravação;
- dados de saúde, como batimentos e sinais de estresse;
- um filtro que borra imagens e sons que deixariam a criança assustada.
Para uma mãe que cria a filha sozinha, a promessa é irresistível: nunca mais aquele minuto de pânico no parquinho.
Por alguns anos, parece funcionar. Sara está sempre localizável, e nada de ruim aparece na frente dela.
Por que o filtro do Arkangel é um problema?
O filtro protege Sara de tudo, inclusive do que ela precisaria conhecer. Cenas de violência e qualquer coisa que provoque estresse aparecem borradas. A criança cresce sem saber lidar com o medo, a dor e o conflito, porque nunca entrou em contato com eles.
Um psicólogo recomenda que Marie desative o sistema. Ela desliga o filtro, guarda o tablet no sótão e deixa a filha ir à escola sem acompanhamento. Sem preparo nenhum, Sara descobre de uma vez o que estava escondido. Jodie Foster preferiu não mostrar violência explícita contra a criança, para manter o foco na relação entre mãe e filha.
Repare na ideia que o episódio sustenta. Proteger demais também é uma forma de deixar alguém despreparado. O conto de Ray Bradbury sobre uma casa que realiza todos os desejos das crianças faz uma pergunta parecida, como mostra o texto sobre O Veldt.
O que acontece quando Marie volta a vigiar?
Sara tem 15 anos quando mente para a mãe sobre onde vai dormir naquela noite. Marie, aflita, tira o tablet do sótão e liga o sistema de novo.
O que ela vê são momentos íntimos da filha e o uso de drogas numa festa. A partir daí, Marie não para mais de olhar. O que começa como espiada vira rotina. Marie ameaça o rapaz com quem Sara está saindo, para que ele se afaste, sem que a filha saiba.
Então o aparelho avisa que Sara está grávida. Marie não conversa com a filha. Coloca às escondidas uma pílula do dia seguinte na bebida dela. Sara passa mal na escola, uma enfermeira explica o motivo, e ela entende que a mãe esteve vigiando tudo.
E aqui vale prestar atenção no que a vigilância fez com Marie. A cada olhada no tablet, ela decide mais pela filha, e conversa menos com ela.
Como termina Arkangel?
Sara confronta a mãe. Na briga, o filtro do sistema volta a funcionar por acidente, e Sara para de enxergar o rosto ferido de Marie. Sem ver o dano que está causando, ela golpeia a mãe com o tablet até quebrá-lo.
Sara vai embora pela estrada e pega carona num caminhão. Marie acorda sozinha, com o tablet quebrado e sem nenhum jeito de saber onde a filha está.
O final reúne o que o episódio construiu:
- O medo realizado: Jodie Foster lembra que, ao tentar impedir que a filha fosse embora, Marie provocou exatamente isso.
- O filtro contra quem o usou: a ferramenta criada para evitar sofrimento impede Sara de ver o sofrimento da mãe.
- A violência mais difícil de assistir: para Rosemarie DeWitt, o ataque da filha é o momento mais devastador da história.
Monitorar os filhos é um problema?
Hoje existem aplicativos que mostram a localização de crianças e adolescentes, relógios com GPS e programas que acompanham o uso do celular. Nenhum deles chega perto de Arkangel, mas a pergunta é a mesma: até onde vai o cuidado, e onde começa o controle. No episódio, essa pergunta nunca é feita em voz alta. Marie decide sozinha, e Sara só descobre depois.
A Lei Geral de Proteção de Dados dá um ponto de partida: o tratamento de dados de crianças e adolescentes deve atender ao melhor interesse deles, segundo o artigo 14 da LGPD. Para Jodie Foster, o centro da história é a liberdade da filha de fazer escolhas e viver as próprias experiências, como contou à Variety.
Arkangel é o caso mais próximo de casa de um tema que Black Mirror visita várias vezes, reunido no texto sobre vigilância em Black Mirror. Os demais temas estão na página sobre Black Mirror.
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