San Junipero, de Black Mirror: o que significa escolher a eternidade?

Atualizado em

Uma cidade de praia em 1987, uma boate cheia e duas mulheres que se encontram com hora para acabar. Em San Junipero, Black Mirror transforma uma pergunta sobre a morte numa história de amor.


San Junipero é o quarto episódio da terceira temporada de Black Mirror e, para muita gente, o mais bonito da série. Escrito por Charlie Brooker e dirigido por Owen Harris, tem Mackenzie Davis e Gugu Mbatha-Raw nos papéis principais.

O episódio esconde por um bom tempo o que está acontecendo. Daqui em diante, o texto conta tudo, inclusive o final.

Do que se trata San Junipero?

Em 1987, numa cidade de praia chamada San Junipero, a tímida Yorkie entra numa boate cheia de fliperamas e conhece Kelly, extrovertida e cheia de energia. As duas se aproximam, se afastam e se procuram.

Yorkie volta à cidade em outras semanas e descobre algo estranho: a mesma boate aparece em outras décadas, e é numa delas, em 2002, que ela reencontra Kelly. O episódio vai deixando pistas de que San Junipero tem regras próprias:

  • os encontros sempre têm hora para acabar;
  • a cidade muda de década, mas as pessoas continuam jovens;
  • Kelly evita se apegar e, mais tarde, conta que está morrendo.

O que é San Junipero, afinal?

San Junipero é uma realidade simulada. Pessoas idosas podem visitá-la por tempo limitado, num corpo jovem, escolhendo a época. Quem morre pode decidir ficar lá para sempre.

No mundo real, Yorkie está paralisada e em coma há 40 anos, desde um acidente de carro aos 21. A família dela se opõe à eutanásia que permitiria que ela ficasse de vez na cidade. Kelly é uma mulher idosa, doente, com pouco tempo de vida.

Repare no que muda quando a verdade aparece. A cidade dos anos 1980 era o único lugar onde Yorkie podia andar, dançar e se apaixonar. Kelly se casa com ela no mundo real para poder autorizar a eutanásia, e Yorkie entra em San Junipero para sempre.

Por que Kelly não queria ficar em San Junipero?

Kelly foi casada por décadas. O marido morreu sem querer ir para San Junipero, porque a filha do casal tinha morrido antes de a cidade existir. Para ele, continuar vivendo sem a filha não fazia sentido.

Kelly pretende fazer o mesmo, por lealdade. As duas brigam, e Kelly joga o carro contra uma barreira, um gesto que, numa cidade simulada, não deixa marcas no corpo.

E aqui vale prestar atenção no peso dessa escolha. Ficar em San Junipero significa abrir mão de se reunir com quem já partiu, se existir alguma coisa depois da morte. O próprio diretor, Owen Harris, admitiu que essa renúncia deixa uma inquietação por baixo do final feliz.

A consciência de alguém pode ser transferida?

Por enquanto, não. O chamado upload da mente aparece em projetos e promessas do transumanismo, mas não tem nenhuma prova de conceito em seres humanos, como mostra o texto sobre o corpo em transição.

San Junipero também não explica como a tecnologia funciona. O episódio usa a ideia como ponto de partida para falar de outra coisa: o que alguém escolhe fazer com uma segunda chance. O que interessa é o desejo por trás da tecnologia, o de ter mais tempo com quem se ama.

Como termina San Junipero?

Kelly muda de ideia. Escolhe ficar em San Junipero, é enterrada ao lado da família, e reencontra Yorkie na cidade. As duas aparecem juntas, felizes, ao som de uma canção dos anos 1980.

A última cena mostra outra coisa: uma sala enorme de servidores, com luzes piscando. Cada luz é alguém que escolheu ficar.

O final deixa algumas perguntas no ar:

  • A eternidade é paraíso? Uma noite sem fim pode cansar, e o próprio episódio mostra frequentadores antigos atrás de qualquer emoção nova.
  • Quem cuida dos servidores? A vida eterna de cada pessoa depende de uma empresa e de máquinas funcionando.
  • Kelly traiu o marido? Ou a escolha dela é justamente o que ele não teve a chance de fazer?

San Junipero tem final feliz?

Para Charlie Brooker, tem: ele chamou o desfecho de o final mais feliz que se pode imaginar. Owen Harris prefere chamar de agridoce, mais doce do que amargo, como contou ao The Hollywood Reporter.

A primeira versão do roteiro tinha um casal heterossexual e um final triste. Brooker mudou as duas coisas. Com duas mulheres em 1987, quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo não era permitido, a cidade simulada ganhou outro sentido: é o lugar onde as duas podem viver o que a época negava. Harris também lembrou que o roteiro partia de um clima de filme adolescente dos anos 1980, otimista de propósito, segundo outra entrevista ao mesmo jornal.

O episódio ganhou dois prêmios Emmy, incluindo o de melhor filme para televisão. É a resposta mais luminosa de um tema que a série visita várias vezes, reunido no texto sobre identidade digital em Black Mirror. Os demais temas estão na página sobre Black Mirror.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – no lugar de Kelly, você ficaria em San Junipero?

Deixe um comentário