A nova adaptação de Frankenstein, dirigida por Guillermo del Toro e lançada na Netflix, reacendeu o debate: afinal, o livro é sempre melhor que o filme? Parte do incômodo pode vir menos da obra e mais da forma como enxergamos adaptações.
Frankenstein volta, e divide opiniões
Desde a estreia, o filme tem recebido avaliações mistas, especialmente entre leitores de Mary Shelley.
O estranhamento surge quando a adaptação toma decisões estéticas ou narrativas distintas daquelas construídas mentalmente pelo público.
É aí que a percepção cultural pesa: aquilo que o espectador espera nem sempre coincide com o que encontra.
Expectativa não é realidade
Quem conhece o livro tende a carregar consigo uma versão interna da história – personagens, ritmos, temas, atmosferas.
Quando a adaptação vai por outro caminho, nasce o desconforto: a cabeça pede que o filme confirme o livro, não que o interprete.
Esse choque entre o que se espera e o que se recebe é comumente explicado pela dissonância cognitiva: o incômodo gerado quando duas ideias entram em conflito.
No caso, a memória do texto e a experiência audiovisual.
O coro das redes
Ao sentir esse desconforto, muitos buscam nas redes sociais opiniões semelhantes – e encontram.
Ali, a impressão inicial é rapidamente reforçada por outras vozes, repetindo que o livro “é melhor”.
Esse processo exemplifica o viés de confirmação: a tendência de buscar e valorizar apenas informações que sustentam crenças prévias.
Assim, mesmo antes de terminar o filme, muita gente já sente que sua opinião “ganhou”, seja lá o que for. Mas isso é só reforço, não avaliação.
Comparar é fácil; perceber as diferenças, nem tanto
Daí surge outra armadilha: a comparação direta.
Livro e filme são linguagens distintas – o primeiro trabalha imaginação e tempo interno; o segundo utiliza imagem, som e ritmo.
Quando se coloca os dois lado a lado para decidir qual “é melhor”, cai-se na falsa equivalência: exigir que formas expressivas diferentes desempenhem a mesma função.
É como pedir que uma pintura cantasse – não é sua natureza.
Adaptação é interpretação
Toda adaptação é um recorte, não uma cópia.
Ao adaptar Frankenstein, Del Toro não busca transcrever o romance, cena a cena, mas apresentar uma leitura própria – estética, dramatúrgica, simbólica.
Gostar ou não dessa leitura é legítimo; exigir fidelidade total ao texto é confundir obra com manual.
O que vale perguntar
Em vez de decidir quem “vence”, talvez seja mais interessante perguntar:
O que esta versão acrescenta ao mundo de Frankenstein?
Quando se reconhece que cada linguagem tem recursos e limites próprios, a comparação deixa de ser disputa e vira diálogo.
Outras adaptações que geraram estranhamento
O desconforto com adaptações não é exclusividade de Frankenstein.
É recorrente – especialmente quando obras muito queridas ganham releituras.
Alguns exemplos (do mais recente ao mais clássico):
- The Witcher (série, Netflix, 2019–)
Mudanças no tom e no desenvolvimento de personagens dividem fãs dos livros. - The Dark Tower (2017)
Condensou múltiplos livros de Stephen King em um único filme, perdendo densidade. - Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief (2010)
Alterações no universo e na lógica narrativa geraram rejeição. - Eragon (2006)
Cortes e simplificações afastaram o filme do livro original.
Esses casos mostram como expectativas anteriores moldam a recepção – e como a comparação literal frequentemente empobrece a discussão.
Para seguir a conversa
- Frankenstein: o arquétipo da criação e seus limites – o ensaio sobre ética científica e responsabilidade pós-criação.
- Mary Shelley: a jovem que sonhou o futuro e revelou um monstro – a autora e seu tempo.
- A solidão do Criador: um ensaio sobre humanidade – o preço de inventar em silêncio.
- O século elétrico de Frankenstein: quando a ciência começou a provocar medo – ciência, vapor e relâmpagos no século XIX.
Você busca conhecimento e sabedoria, como eu busquei; e espero ardentemente que a realização de seus desejos não se transforme, como aconteceu comigo, numa serpente que venha mordê-lo.
— Mary Shelley,
Frankenstein (1818)
Para quem busca entender o pensamento, a filosofia e o contexto de uma era que “inventou o progresso” — e por que a provocação de Shelley ainda ecoa dois séculos depois.

