A política comercial brasileira passou por mudanças profundas ao longo do século XX. Durante décadas, a importação foi controlada como parte de uma estratégia de industrialização. No fim dos anos 1980 e, sobretudo, no início dos anos 1990, tarifas e restrições foram reduzidas.
Essa passagem não eliminou a atuação do Estado. Modificou seus instrumentos, suas instituições e a forma como a importação passou a integrar a economia brasileira.
O que foi a substituição de importações?
A substituição de importações foi uma estratégia de industrialização baseada na produção interna de bens anteriormente comprados do exterior.
Ela ganhou força depois da crise de 1929 e das dificuldades de abastecimento provocadas pelas guerras mundiais.
Com menos acesso a produtos estrangeiros e menor disponibilidade de divisas, tornou-se necessário ampliar a produção doméstica.
A estratégia combinou diferentes instrumentos:
- tarifas elevadas;
- licenças e controles de importação;
- administração cambial;
- financiamento público;
- investimento estatal em infraestrutura e indústrias de base;
- incentivos à produção nacional.
A importação não desapareceu. Máquinas, combustíveis, componentes e tecnologias continuaram sendo necessários. O objetivo era selecionar o que poderia entrar e priorizar o uso das divisas disponíveis.
Industrialização e proteção do mercado interno
A proteção permitiu a formação e a expansão de setores industriais que enfrentariam dificuldades diante de concorrentes estrangeiros já estabelecidos.
Também gerou custos. Empresas protegidas por longos períodos podiam ter poucos incentivos para elevar produtividade, reduzir preços ou incorporar novas tecnologias.
Além disso, tarifas sobre máquinas e insumos aumentavam o custo de produção de outras empresas brasileiras.
O resultado não cabe em uma avaliação simples. A proteção contribuiu para a industrialização, mas sua manutenção prolongada também produziu distorções, baixa concorrência e estruturas pouco eficientes em determinados setores.
A política comercial não permaneceu igual
A substituição de importações não foi um sistema imóvel entre 1930 e 1990.
Em diferentes períodos, o Brasil combinou proteção ao mercado interno com:
- estímulos às exportações;
- atração de capital estrangeiro;
- importação de máquinas;
- regimes cambiais diferenciados;
- incentivos fiscais;
- formação de empresas estatais.
Durante o regime militar, por exemplo, a indústria permaneceu protegida, mas a política econômica também buscou ampliar exportações e financiar grandes projetos.
A história foi mais irregular do que a expressão “economia fechada” costuma sugerir.
As reformas do fim dos anos 1980
A abertura não começou de uma vez com o governo Collor.
Em 1988, o Brasil iniciou uma reforma tarifária que reduziu redundâncias, eliminou parte dos regimes especiais e reorganizou a estrutura das alíquotas. Permaneciam, contudo, tarifas elevadas e várias restrições administrativas.
No início dos anos 1990, a liberalização foi acelerada. Restrições foram retiradas e iniciou-se um cronograma de redução tarifária.
Estudos do Ipea sobre a abertura comercial mostram que a tarifa média caiu de forma relevante durante a primeira metade daquela década, embora os efeitos variassem entre os setores.
O que mudou com a abertura comercial?
A redução das barreiras ampliou a concorrência de produtos estrangeiros.
Para consumidores, isso significou maior variedade e, em vários segmentos, acesso a produtos mais baratos ou tecnologicamente mais avançados.
Para as empresas, os resultados foram diferentes:
- algumas ganharam acesso a máquinas e insumos importados;
- outras aumentaram produtividade diante da concorrência;
- setores menos preparados perderam participação;
- empresas foram reorganizadas, incorporadas ou encerradas;
- cadeias produtivas passaram a utilizar mais componentes estrangeiros.
A importação deixou de ser tratada apenas como ameaça à produção doméstica e passou a ocupar também o papel de fonte de tecnologia, insumos e concorrência.
O Plano Real e as importações
Depois de 1994, a valorização cambial associada à estabilização aumentou o poder de compra da moeda brasileira diante dos produtos estrangeiros.
As importações cresceram e contribuíram para ampliar a oferta interna. A concorrência externa também ajudou a limitar reajustes de preços em alguns setores.
Ao mesmo tempo, o câmbio valorizado e a abertura pressionaram empresas domésticas. A política comercial e a política cambial produziram efeitos conjuntos, embora sejam instrumentos diferentes.
Mercosul e Tarifa Externa Comum
O Tratado de Assunção, assinado em 1991, iniciou a formação do Mercosul. Em 1995 entrou em vigor a Tarifa Externa Comum, ou TEC.
Em uma união aduaneira completa:
- o comércio interno tende a ocorrer sem tarifas;
- os membros aplicam uma tarifa comum a produtos de fora do bloco;
- a política comercial externa é coordenada.
O Mercosul, entretanto, permanece uma união aduaneira incompleta. Existem listas de exceções, regimes nacionais, setores com tratamento próprio e diferenças na aplicação da política comercial.
A TEC funciona como estrutura comum, mas não elimina todas as decisões nacionais.
A criação da CAMEX
A Câmara de Comércio Exterior foi criada em 1995, em um contexto de abertura, integração regional e aumento da complexidade institucional.
Atualmente, a CAMEX atua na formulação, adoção, implementação e coordenação de políticas relacionadas ao comércio exterior, investimentos e financiamento às exportações.
Sua estrutura e suas competências foram modificadas diversas vezes.
Por isso, referências à composição dos colegiados devem ser conferidas nas páginas oficiais vigentes, e não tratadas como permanentes.
Abertura não significa ausência de regulação
A redução tarifária não transformou a importação em uma atividade sem controle.
Continuaram existindo:
- classificação de mercadorias;
- tarifas e exceções;
- regras de origem;
- exigências sanitárias e técnicas;
- controles ambientais;
- procedimentos aduaneiros;
- defesa comercial;
- regimes especiais;
- compromissos com o Mercosul e a OMC.
A política comercial brasileira passou a combinar abertura seletiva, proteção setorial, integração regional e controles regulatórios.
Por isso, não existe uma passagem linear de “economia fechada” para “economia aberta”. Existem diferentes graus e instrumentos de intervenção.
O que essa história explica hoje?
A formação histórica ajuda a compreender por que o sistema brasileiro reúne:
- uma tarifa comum do Mercosul acompanhada por exceções;
- instrumentos de proteção e redução tarifária;
- vários órgãos com competências específicas;
- controles sanitários, ambientais e técnicos;
- mecanismos de defesa comercial;
- processos de modernização aduaneira.
O próximo passo é entender esses instrumentos separadamente. Continue em Política comercial na importação: tarifas, medidas não tarifárias e controle.
Se este texto ajudou a mostrar que a abertura brasileira foi um processo, e não uma porta aberta em uma única manhã de 1990, compartilhe com quem estuda a formação econômica do país.

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