As quatro causas de Aristóteles: o que é uma explicação?

As famosas quatro causas de Aristóteles surgem de uma questão maior do que a lista que aparece nos livros escolares: afinal, o que precisamos saber para dizer que realmente explicamos alguma coisa?


O que são as quatro causas de Aristóteles?

Na Física, Aristóteles apresenta quatro maneiras de responder ao “por quê?”:

  • causa material: aquilo de que algo é feito;
  • causa formal: aquilo que faz a coisa ser o que é;
  • causa eficiente: aquilo que produz a mudança;
  • causa final: aquilo para o qual algo existe ou é realizado.

A Stanford Encyclopedia of Philosophy destaca justamente esse caráter explicativo: conhecer algo, para Aristóteles, envolve conhecer seu porquê.

Vamos então fazer o teste.

Por que esta estátua existe?

O próprio Aristóteles usa exemplos como uma estátua de bronze. Pergunte pela causa e podemos apontar para o escultor.

Ele é a causa eficiente, aquilo que produziu a transformação.

Resolvido?

Ainda não.

Do que a estátua é feita?

Bronze. Temos a causa material.

Mas coloque uma quantidade de bronze no chão e espere. A menos que sua confiança no metal seja extraordinária, uma estátua não aparecerá.

É preciso uma determinada organização da matéria. A figura que faz daquele bronze uma estátua corresponde à causa formal.

E ainda podemos perguntar: para que ela foi produzida?

Homenagear alguém? Decorar um espaço? Representar uma divindade?

Entramos na causa final.

Uma coisa. Quatro perguntas diferentes.

E se trocarmos uma das causas?

Agora imagine uma cadeira de madeira.

A madeira é sua causa material. Troque a madeira por plástico.A cadeira deixou de ser cadeira?

Não.

Então a matéria, sozinha, não determina aquilo que a coisa é.

Podemos continuar…

Se retirarmos o encosto, talvez ainda tenhamos uma cadeira. Se diminuirmos uma perna em dois centímetros, continuaremos provavelmente diante de uma cadeira bastante irritante.

Mas continue alterando sua estrutura e, em algum momento, teremos de perguntar: isso ainda é uma cadeira?

A questão fica mais interessante porque as quatro causas não funcionam como quatro peças que simplesmente ligamos para fabricar uma coisa. Elas são dimensões diferentes da explicação.

Alterar uma delas pode produzir outra coisa.

Ou não.

Causa não significava exatamente o que significa hoje

Se alguém pergunta: “Qual foi a causa do acidente?”

Ninguém costuma responder: “o material de que o carro é feito”.

Hoje pensamos em causa principalmente como aquilo que produziu determinado efeito. É uma noção próxima da causa eficiente aristotélica.

É também a causalidade que procuramos distinguir de uma simples associação em Correlação e causalidade: por que “andar junto” pode não provar nada?

Mas aitia, termo empregado por Aristóteles, possuía um sentido mais amplo: causa, razão, explicação, aquilo que permite responder a um “por quê?”.

É um pouco como acontece com a palavra “teoria”. Em “Isso é só uma teoria”, vimos que uma palavra cotidiana pode conservar a aparência e mudar bastante de significado quando entra na ciência.

Com “causa”, aconteceu algo parecido.

Mudar uma causa muda o resultado?

No texto sobre o efeito borboleta, vimos algo curioso: em certos sistemas, uma alteração muito pequena nas condições iniciais pode produzir trajetórias profundamente diferentes.

Seria tentador transportar a ideia para Aristóteles: mudou uma causa, mudou a coisa.

Só que não é tão simples.

Uma cadeira pode trocar madeira por plástico e continuar cadeira. Uma estátua pode ser feita de bronze ou mármore.

Algumas mudanças preservam aquilo que reconhecemos como a mesma espécie de objeto; outras atingem justamente aquilo que utilizamos para defini-lo.

E essa diferença nos devolve à pergunta central do texto.

O que estamos tentando explicar?

A matéria?; A estrutura?; A origem da mudança?; A finalidade?

Antes de procurar “a causa”, Aristóteles distingue os diferentes tipos de resposta que podem caber dentro de um mesmo “por quê?”.

Então Aristóteles estava certo?

A ciência moderna não adotou as quatro causas como um manual universal de investigação.

Explicações por finalidade, especialmente na natureza, passaram a exigir muito mais cuidado, enquanto aquilo que Aristóteles chamaria de causa eficiente ganhou enorme importância.

Mas o problema permanece vivo na Filosofia da Ciência: quando podemos considerar um fenômeno suficientemente explicado?

  • Descobrir o mecanismo basta?
  • Precisamos conhecer sua estrutura?
  • Sua origem?
  • Sua função?

Aristóteles formulou essas questões há mais de dois mil anos ao distinguir quatro tipos de causa. A ciência mudou profundamente desde então, assim como a maneira de explicar os fenômenos.

Ainda assim, a pergunta permanece: o que precisamos saber para considerar alguma coisa realmente explicada?


E, se alguém disser que a causa de uma cadeira é a madeira, compartilhe este texto e lembre que ela também pode ser de plástico, ferro, madeira e ferro, plástico e metal…


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