Tales from the Loop: a tecnologia como espelho da condição humana

Em Tales from the Loop, robôs, máquinas e fenômenos impossíveis fazem parte da paisagem. O centro da série está nas pessoas que precisam conviver com aquilo que a tecnologia permite — e com as consequências de suas próprias escolhas.


Um robô gigantesco atravessa um campo enquanto uma família segue sua rotina. Uma máquina capaz de trocar corpos permanece abandonada na floresta.

Sob uma pequena cidade, um centro de pesquisas tenta compreender fenômenos que desafiam as leis conhecidas da realidade.

Mas, para os habitantes de Mercer, nada disso parece inteiramente extraordinário.

Tales from the Loop é uma série de ficção científica, mas quase nunca se comporta como aquilo que costumamos reconhecer sobre o gênero.

As máquinas estão por toda parte, porém não dominam a narrativa. Elas interferem na vida dos personagens e tornam possíveis situações impossíveis, mas a atenção permanece nas consequências.

O que acontece quando alguém pode interromper o tempo? O que uma pessoa faria se pudesse ocupar outro corpo? Encontrar uma realidade alternativa resolveria a insatisfação com a própria vida?

A série não está necessariamente interessada no funcionamento das máquinas. Ela observa aquilo que as pessoas fazem quando essas máquinas lhes oferecem possibilidades.

Uma ficção científica sem aparência de futuro

Mercer parece uma cidade presa a um tempo difícil de determinar. Seus moradores usam telefones fixos, dirigem veículos antigos e vivem entre oficinas, estradas vazias, florestas e casas modestas.

Ao mesmo tempo, robôs caminham pelos campos e estruturas mecânicas enferrujam no meio da paisagem.

Esse contraste vem do universo visual criado pelo artista sueco Simon Stålenhag.

Em suas pinturas, tecnologias monumentais convivem com bairros residenciais, crianças de bicicleta e paisagens rurais. O extraordinário não invade o cotidiano: ele já faz parte dele.

Essa combinação costuma ser associada ao retrofuturismo, uma representação do futuro construída a partir de expectativas, objetos e formas visuais do passado.

Em Tales from the Loop, entretanto, o retrofuturismo vai além da aparência. As máquinas parecem envelhecidas antes mesmo que o espectador compreenda sua finalidade.

Algumas estão quebradas. Outras foram abandonadas. Quase todas carregam marcas de uso.

A tecnologia não surge como novidade brilhante. Ela já faz parte da história daquele lugar.

O Loop e a cidade de Mercer

O nome da série vem do Loop, uma instalação científica subterrânea construída para investigar fenômenos que desafiam as explicações conhecidas.

Muitos personagens trabalham no local ou pertencem a famílias ligadas a ele.

A existência do laboratório explica a presença das máquinas, mas a série não transforma o Loop num grande mistério a ser solucionado. Não há uma investigação destinada a revelar todos os seus segredos no último episódio.

O Loop funciona principalmente como o centro silencioso de Mercer. Dele saem objetos, fenômenos e experiências que atravessam a vida dos moradores.

Entre as possibilidades apresentadas pela série estão:

  • a troca de corpos;
  • a suspensão do tempo;
  • o acesso a uma realidade paralela;
  • o deslocamento temporal;
  • máquinas relacionadas à memória, ao medo e à mortalidade.

A lista sugere uma produção movimentada. O ritmo, porém, é lento e contemplativo.

Tales from the Loop dedica mais tempo às hesitações dos personagens do que às máquinas que tornam suas experiências possíveis.

Como os episódios de Tales from the Loop estão conectados?

Os oito episódios concentram-se em personagens diferentes, mas formam uma única história. Pessoas que aparecem brevemente em um capítulo podem ocupar o centro do seguinte.

Por isso, uma escolha feita no início da temporada pode produzir consequências compreendidas apenas mais tarde.

A família de Loretta constitui uma das principais ligações. Sua infância abre a série, enquanto sua vida adulta, seus filhos e os demais habitantes de Mercer atravessam os episódios seguintes.

A temporada também permite reunir os capítulos em quatro pares temáticos.

Episódios 1 e 8: tempo, família e perda

Loop e Home abrem e encerram a história. Os dois episódios acompanham crianças confrontadas com acontecimentos que alteram sua relação com o tempo, a família e o lugar ao qual pertencem.

A infância de Loretta e a experiência de Cole ocupam extremos de uma narrativa marcada por desaparecimentos, perdas e reencontros incompletos.

Episódios 2 e 6: identidade e vidas possíveis

Em Transpose e Parallel, a série apresenta duas maneiras diferentes de desejar outra existência.

No primeiro, dois adolescentes experimentam a vida um do outro por meio de uma troca de corpos. No segundo, um homem encontra uma realidade na qual outra versão de si tomou decisões diferentes.

Os dois episódios partem do desejo de escapar da própria vida. O resultado, porém, não corresponde aos desejos iniciais.

Episódios 3 e 7: tempo interrompido e isolamento

Stasis e Enemies aproximam personagens que tentam se proteger por meio do afastamento.

Um dispositivo permite suspender o tempo ao redor de duas pessoas. Em outra história, um trauma da infância permanece escondido durante décadas.

Nos dois casos, o isolamento parece inicialmente oferecer segurança. Aos poucos, transforma-se em outra forma de aprisionamento.

Episódios 4 e 5: mortalidade, medo e controle

Echo Sphere e Control tratam de personagens colocados diante dos limites de sua capacidade de interferir no mundo.

Um menino começa a compreender que a vida de seu avô tem um limite. Um pai transforma o desejo de proteger a família em vigilância e força.

Um episódio acompanha aquilo que precisa ser aceito. O outro mostra o desgaste provocado pela tentativa de controlar tudo.

A tecnologia amplia aquilo que já existia

As máquinas de Tales from the Loop não criam os conflitos dos personagens.

A troca de corpos não inventa a insatisfação com a própria vida. A realidade paralela não produz a solidão. A possibilidade de interromper o tempo não cria o desejo de prolongar um momento feliz.

A tecnologia oferece uma oportunidade e amplia algo que já estava presente.

É por isso que a série explica tão pouco sobre o funcionamento de seus equipamentos. Conhecer os mecanismos não eliminaria as escolhas realizadas nem repararia suas consequências.

O Loop altera corpos, espaços e a própria percepção do tempo. Ainda assim, não oferece aos personagens a maturidade necessária para lidar com aquilo que desejam.

O tempo como elemento central

Apesar das máquinas e dos fenômenos impossíveis, o tempo é a presença mais constante da série.

Crianças crescem. Relações mudam. Pessoas desaparecem. Lugares permanecem carregados por lembranças que seus novos habitantes desconhecem.

A lentidão de Tales from the Loop nasce dessa atenção ao intervalo entre o acontecimento extraordinário e a compreensão de suas consequências.

Nem todos os episódios produzem o mesmo impacto, mas a temporada mantém uma unidade muito interessante.

As máquinas abrem passagens, interrompem o tempo e reorganizam corpos. Nenhuma delas, porém, impede que as pessoas precisem escolher, envelhecer e conviver com aquilo que perderam.


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