Tales from the Loop: quando se esconder do tempo não faz o medo desaparecer

Em Stasis e Enemies, dois personagens encontram formas diferentes de se afastar do mundo. Um tenta preservar para sempre um momento feliz; o outro passa a vida evitando um medo que nunca deixou para trás.


Em Stasis, uma adolescente descobre uma máquina capaz de interromper o tempo para quase todas as pessoas. Em Enemies, um homem retorna ao lugar onde viveu uma experiência assustadora na infância.

Os episódios não contam histórias paralelas. May escolhe se retirar do mundo por algum tempo; George passa décadas tentando manter uma parte do passado à distância.

O que os aproxima é a ilusão de que uma experiência pode ser isolada sem alterar todo o restante da vida.

• Este texto integra uma análise em cinco partes de Tales from the Loop. Para conhecer Mercer e entender como os oito episódios se conectam, comece pelo guia principal da série.

Stasis: um momento que não deveria terminar

May vive uma adolescência marcada pela sensação de estar cercada por relações frágeis.

Sua mãe desaprova seu envolvimento com Ethan, enquanto o próprio relacionamento começa a se formar sob a pressão de um cotidiano no qual os dois têm pouco espaço.

Quando May encontra um estranho dispositivo na floresta, descobre que ele pode interromper o movimento do mundo. Com a ajuda de Ethan, consegue colocar a máquina em funcionamento.

Protegidos pelo efeito do aparelho, os dois continuam se movimentando enquanto todas as outras pessoas ficam congeladas.

No início, a situação parece uma liberdade absoluta:

  • não há horários;
  • não há adultos interferindo;
  • não há consequências imediatas;
  • o casal pode ocupar sozinho toda a cidade.

O tempo interrompido oferece aquilo que May deseja: um espaço em que o relacionamento não precise disputar atenção com mais nada.

Mas uma vida sem interferência também se torna uma vida sem continuidade.

A diferença entre preservar e viver

May e Ethan permanecem durante semanas naquele mundo imóvel. Podem entrar em casas, utilizar objetos e circular por lugares que normalmente não lhes pertencem.

O problema aparece quando o isolamento deixa de parecer aventura e começa a revelar as diferenças entre os dois.

Ethan percebe que não podem permanecer para sempre. May reage como se a simples vontade de sair fosse uma rejeição àquilo que viveram juntos.

O dispositivo que deveria preservar o vínculo começa a expor sua fragilidade.

Ao suspender o mundo, May também tenta suspender:

  • as dúvidas sobre o relacionamento;
  • a possibilidade de abandono;
  • as mudanças que acompanham qualquer convivência;
  • a passagem de uma paixão inicial para uma relação real.

Ela quer conservar o momento em que tudo ainda parece possível. Ethan, porém, continua mudando mesmo dentro do tempo parado.

Essa é a contradição central de Stasis: o mundo pode ficar imóvel, mas as pessoas que permanecem conscientes dentro dele continuam acumulando experiências.

O tempo não desaparece apenas porque os relógios deixaram de funcionar.

Enemies: o medo escondido numa ilha

Enemies retorna à infância de George, pai de Cole e Jakob.

Quando menino, ele ouve histórias sobre uma criatura que viveria numa ilha próxima a Mercer. Pressionado pelos amigos, participa de uma viagem até o local.

O que começa como provocação termina quando George é abandonado sozinho.

Na ilha, ele encontra algo que não consegue compreender inteiramente: uma figura mecânica e ameaçadora, ligada aos resíduos tecnológicos do Loop.

George sobrevive e volta para casa. A experiência, porém, nunca é realmente encerrada.

Já adulto, ele mantém a lembrança separada da vida cotidiana. Raramente fala sobre o que aconteceu e evita retornar ao lugar.

O medo não ocupa todos os seus pensamentos, mas continua existindo como uma parte isolada de sua história.

Até que ele decide voltar.

O monstro de Enemies é real?

A criatura encontrada por George não é apenas imaginação infantil. Ela existe fisicamente dentro do universo da série e está associada às máquinas abandonadas ao redor do Loop.

Mas a importância do episódio não depende de decidir se o monstro é “real” ou simbólico.

Ele funciona das duas formas.

Fisicamente, a criatura representa um perigo que George encontrou quando criança. Emocionalmente, ela concentra tudo o que permaneceu ligado àquela experiência:

  • a humilhação diante dos amigos;
  • o medo de parecer covarde;
  • o abandono na ilha;
  • a lembrança de ter enfrentado algo sem ajuda;
  • o silêncio mantido durante tantos anos.

George não retorna apenas para destruir uma máquina. Ele volta para descobrir se ainda é a mesma criança acuada naquele lugar.

O confronto não apaga o passado, mas modifica sua posição diante dele. A criatura deixa de ocupar um território inacessível em sua memória e volta a ser algo que pode ser enfrentado.

O que liga Stasis e Enemies?

May e George tentam separar uma experiência do restante da vida.

May cria um mundo fechado para impedir que um momento termine. George mantém uma lembrança fechada para evitar revivê-la.

Nos dois casos, o isolamento parece proteger:

  • May acredita que pode preservar o amor;
  • George acredita que pode manter o medo distante;
  • ambos descobrem que aquilo que foi separado continua produzindo efeitos.

A diferença está no movimento de cada personagem.

May precisa aceitar que um vínculo só continua existindo se também puder mudar. George precisa retornar ao passado para perceber que ele não está condenado a permanecer diante dele como uma criança.

Em Stasis, sair do isolamento significa permitir que o tempo volte a correr. Em Enemies, significa voltar ao lugar de origem do medo e confrontá-lo já como adulto.

Fugir da mudança também é uma escolha

O aparelho de Stasis e a criatura de Enemies cumprem funções diferentes. Uma oferece controle; a outra representa uma ameaça.

Ainda assim, ambos revelam o custo de tentar manter uma parte da vida fora do movimento.

May descobre que preservar um momento não equivale a preservar uma relação. George percebe que evitar uma lembrança não impede que ela participe de quem ele se tornou.

A tecnologia do Loop torna visíveis duas formas de paralisia: a vontade de impedir que algo termine e o medo de voltar ao que nunca foi concluído.

O mundo retorna ao movimento quando May desliga a máquina. George retorna à ilha quando decide enfrentar a criatura.

Nos dois episódios, avançar não significa apagar o que aconteceu. Significa permitir que a experiência deixe de controlar a vida a partir de um lugar onde parecia estar escondida.

A análise seguinte reúne Echo Sphere e Control, episódios sobre mortalidade, medo e a tentativa de proteger quem amamos.


Se Stasis e Enemies também fizeram você pensar nas coisas que tentamos preservar ou manter à distância, compartilhe este texto com alguém que já percebeu que evitar uma mudança não impede que ela aconteça.


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