Frankenstein: criação, abandono e responsabilidade pelo que colocamos no mundo

Autora: Mary ShelleyPublicação: 1818
Frankenstein costuma ser lembrado como uma história de monstro. Mas o centro do romance de Mary Shelley não está apenas na criatura. Está no criador que consegue dar vida a algo extraordinário e, logo depois, foge da responsabilidade pelo que colocou no mundo.


A pergunta mais forte da obra não é “até onde a ciência pode ir?”. A pergunta é outra: o que alguém deve fazer depois que sua criação começa a produzir efeitos sobre outras vidas?

O que acontece em Frankenstein?

Victor Frankenstein é um jovem estudioso fascinado pelos segredos da vida. Movido por ambição intelectual, isolamento e desejo de ultrapassar limites, ele realiza um experimento radical: cria um ser vivo a partir de partes humanas.

O experimento funciona. A criatura ganha vida.

Mas, diante do resultado, Victor não assume o que fez. Ele se assusta, rejeita a criatura e se afasta.

A partir desse abandono, o romance deixa de ser apenas uma narrativa sobre criação científica e se transforma em uma história sobre rejeição, solidão, ressentimento e responsabilidade não assumida.

A criatura, que no início busca reconhecimento, afeto e lugar no mundo, passa a ser tratada como ameaça. Rejeitada pelo criador e pela sociedade, ela se torna cada vez mais marcada pela violência que sofre e pela ausência de resposta.

É aí que o romance se torna mais incômodo:
o “monstro” também é produzido pelo abandono.

A falha do criador: fazer funcionar não basta

Victor Frankenstein não erra simplesmente por criar. Essa leitura empobrece o romance. Mary Shelley não escreveu uma defesa da ignorância nem um panfleto contra a ciência.

O erro de Victor está em confundir capacidade técnica com responsabilidade moral. Ele consegue fazer algo funcionar, mas não constrói nenhuma forma de cuidado, acompanhamento, diálogo ou reparação.

Depois que a criatura ganha vida, Victor age como se o experimento pudesse ser abandonado no mundo. Não há plano. Não há escuta. Não há mediação. Não há tentativa consistente de compreender o que aquela existência exige.

Esse é o ponto central para pensar ética do projeto.

Uma criação não termina quando funciona. Em muitos casos, é justamente aí que a responsabilidade começa.

Colocar algo no mundo significa acompanhar seus efeitos, revisar decisões, reconhecer danos e aceitar que outras pessoas também terão direito de questionar aquilo que foi criado.

No romance, Victor quer o brilho da descoberta, mas não suporta o peso da consequência. Convenhamos: é uma postura bem atual. Só mudou o jaleco; a desculpa continua elegante e simpático para exposição, ou exploração.

Quando a criação escapa ao laboratório

Frankenstein continua forte porque mostra que toda criação técnica pode ultrapassar o espaço controlado em que nasceu. O laboratório parece separado do mundo, mas não é.

O que acontece ali pode atravessar casas, instituições, relações e vidas concretas.

Essa ideia vale para tecnologias atuais. Um sistema de inteligência artificial, um modelo de triagem de currículos, uma plataforma educacional, um classificador de risco ou uma ferramenta de recomendação não podem ser avaliados apenas pela pergunta “funciona?”.

É preciso perguntar também:

  • quem será afetado por esse sistema;
  • quem pode contestar seus resultados;
  • quem monitora seus efeitos;
  • quem repara os danos quando algo dá errado.

Sem essas perguntas, inovação vira transferência de risco. Alguém cria, lança, comemora – e outras pessoas lidam com as consequências.

A lição de Frankenstein é simples e dura: o imprevisto não elimina a responsabilidade. Muitas vezes, ele revela que a responsabilidade nunca foi pensada de verdade.

O corpo da criatura e o problema do conjunto

A criatura de Frankenstein também ajuda a pensar um problema importante: partes isoladas podem parecer aceitáveis, mas o conjunto pode produzir algo inesperado.

Victor reúne partes, aplica conhecimento e alcança um resultado tecnicamente impressionante. Mas o que surge não cabe no controle inicial do criador.

A criação tem presença própria, produz efeitos próprios e exige uma resposta que Victor não está preparado para oferecer.

Essa é uma boa imagem para sistemas complexos. Em tecnologias contemporâneas, um projeto pode ter componentes bem desenhados e ainda assim gerar efeitos ruins quando entra em circulação.

Um sistema pode ser eficiente em média e injusto em casos concretos. Pode economizar tempo e ampliar desigualdades. Pode parecer neutro e repetir preconceitos.

Por isso, responsabilidade tecnológica não pode depender apenas da intenção inicial. Também precisa considerar os efeitos reais do projeto depois que ele começa a operar.

A pergunta ética não é apenas: “o criador quis causar dano?”

A pergunta mais completa é: “o criador acompanhou, corrigiu e respondeu pelos efeitos do que fez?”

A aparência como sentença

Há outro ponto decisivo em Frankenstein: a criatura é julgada antes de ser compreendida. Sua aparência já funciona como condenação.

O primeiro olhar sobre ela não é de escuta. É de repulsa. O estranho é imediatamente tratado como ameaça. Isso torna o romance mais profundo do que uma simples história sobre ciência perigosa.

Mary Shelley mostra que a violência também nasce do modo como olhamos. A criatura é rejeitada pelo que parece ser antes que alguém tente compreender o que ela sente, pensa ou deseja.

Esse tema conversa com problemas atuais. Muitos sistemas sociais e tecnológicos classificam pessoas por sinais externos, padrões, perfis e indicadores.

Em vez de perguntar pela história concreta, reduzem alguém a uma aparência, a uma pontuação ou a uma categoria.

Nesse sentido, Frankenstein não fala apenas sobre criar vida. Fala também sobre o perigo de decidir rápido demais quem merece reconhecimento.

O que a obra ajuda a pensar hoje

Frankenstein ajuda a pensar a responsabilidade depois da criação. Esse é o elo direto com a trilha sobre ética do projeto e responsabilidade tecnológica.

Neste conjunto, a obra de Mary Shelley ocupa o primeiro ponto: o problema da criação abandonada. Em Eu, Robô, a questão se desloca para as regras que tentam controlar máquinas inteligentes.

Em O Jogo do Exterminador, o foco passa para sistemas que escondem decisões graves atrás de simulação, jogo e interface.

Nos três casos, a pergunta central não é apenas se a criação funciona. A pergunta mais importante é: quem responde pelos efeitos daquilo que foi criado?


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