Solos: Peg e a vida que ela adiou por medo de ser vista

Peg embarca numa viagem espacial sem retorno depois de passar a vida tentando ocupar o menor espaço possível. Diante de uma inteligência artificial, ela finalmente percebe que sua invisibilidade também foi construída pelas escolhas que evitou fazer.


No episódio Peg, de Solos, uma mulher de 71 anos viaja sozinha numa nave destinada aos confins do espaço.

A missão não prevê retorno. Peg sabia disso quando se inscreveu.

Durante o trajeto, ela responde às perguntas de TYM, a inteligência artificial da nave.

O que começa como uma conversa sobre a missão logo se transforma numa reconstrução de sua vida: a morte dos pais, a infância com a avó, o amor que recusou e os anos em que aprendeu a passar despercebida.

O espaço parece ser seu destino final. Aos poucos, porém, Peg descobre que ainda deseja voltar.

• Este texto integra a análise dos sete episódios de Solos. O guia geral da série explica como as histórias se conectam e o que Stuart revela no último capítulo.

O que acontece no episódio Peg?

Peg conta que perdeu o pai quando tinha cinco anos. Antes de morrer, ele preparou um duplicado tecnológico para permanecer com a família — o mesmo conflito apresentado no episódio anterior, dedicado a Tom.

Depois da morte do pai, Peg convive por algum tempo com aquela reprodução. Sua mãe também morre pouco depois, e a menina é enviada para viver com a avó na Inglaterra.

A vida de Peg passa a ser marcada por despedidas e pela sensação de estar fora do lugar.

Na juventude, Chong Ming a convida para o baile. Peg acredita que ele age por pena e recusa. Mais tarde, evita suas ligações e perde a oportunidade de descobrir o que poderia ter existido entre os dois.

Anos depois, encontra Chong casado e com filhos. A vida que ela imaginava possível havia continuado sem sua participação.

A missão espacial surge quando Peg já se sente envelhecida e esquecida. Como a viagem aceita voluntários idosos e não oferece retorno, ela parece feita para alguém convencido de que não deixará nada para trás.

Por que Peg se considera invisível?

Peg se acostumou a interpretar cada gesto de aproximação como engano, pena ou obrigação.

Quando alguém demonstra interesse, ela desconfia. Quando poderia pedir algo, prefere não incomodar.

Quando deseja ser notada, esconde esse desejo antes que outra pessoa tenha a oportunidade de rejeitá-la.

Sua invisibilidade não nasce apenas da falta de atenção dos outros. Ela também é reforçada por comportamentos repetidos:

  • Pedir desculpas por ocupar espaço;
  • Recusar convites antes de conhecer suas intenções;
  • Esconder desejos para não parecer exigente;
  • Transformar timidez em destino;
  • Esperar que alguém insista depois de ela própria ter se afastado.

Isso não significa que Peg seja responsável por todas as perdas que viveu. A morte dos pais, a mudança de país e a solidão da infância não foram escolhas suas.

O episódio mostra, porém, como essas experiências se transformaram numa história que ela passou a contar sobre si mesma: Peg seria alguém destinada a observar a vida de longe.

A nave apenas leva essa história à sua forma mais extrema. Ela está finalmente no lugar em que ninguém poderá vê-la.

Peg consegue voltar para a Terra?

Ao narrar sua vida para TYM, Peg percebe que a missão não foi uma aventura corajosa, mas uma desistência organizada.

Ela havia escolhido uma viagem sem retorno porque acreditava não ter mais nenhuma vida para recuperar. A conversa altera essa certeza.

No fim, Peg pede que TYM mude a rota e a leve de volta à Terra.

A inteligência artificial afirma inicialmente que isso não é possível. Peg insiste e pergunta se uma exceção poderia ser feita.

O episódio termina sem confirmar sua chegada, mas a mudança principal já aconteceu: ela deixa de aceitar o desaparecimento como conclusão inevitável.

Durante toda a vida, Peg evitou pedir. Agora, faz um pedido do qual depende sua sobrevivência.

O retorno não apagaria o passado nem devolveria as oportunidades perdidas. Ele representaria algo mais modesto: a decisão de participar do tempo que ainda resta.

Uma leitura filosófica possível: Sartre e a má-fé

A trajetória de Peg permite uma aproximação com o conceito de má-fé, desenvolvido por Jean-Paul Sartre.

Para Sartre, uma pessoa age de má-fé quando tenta fugir da própria liberdade, tratando-se como se possuísse uma identidade fixa e inevitável.

Em vez de reconhecer que ainda pode escolher, passa a dizer a si mesma: “sou assim”, “não há outro caminho” ou “este é o papel que me cabe”.

Peg vive durante anos como se sua invisibilidade fosse uma característica definitiva. Acredita que nasceu para ser esquecida e interpreta suas decisões como simples consequências dessa condição.

O episódio não precisa ter sido escrito diretamente a partir de Sartre. Porém, a aproximação ajuda a perceber que Peg confunde aquilo que lhe aconteceu com aquilo que ainda é obrigada a ser.

Ao pedir para voltar, ela não descobre uma personalidade escondida. Apenas reconhece que sua história ainda não está encerrada.

O espaço como último esconderijo

Peg escolhe o lugar mais distante possível para confirmar aquilo em que já acreditava: sua ausência não faria diferença.

A conversa com TYM produz o efeito contrário. Pela primeira vez, ela escuta a própria história sem conseguir reduzi-la à ideia de que sempre foi invisível.

A inteligência artificial não resolve sua solidão. Funciona como interlocutora para que Peg reconheça os momentos em que desejou alguma coisa, recuou e chamou esse recuo de destino.

A missão espacial deveria ser seu desaparecimento definitivo. Contudo, torna-se o lugar em que ela finalmente pede para continuar vivendo.

No próximo episódio, Sasha precisa decidir se a casa que a protegeu durante vinte anos ainda é um abrigo ou já se transformou em prisão.


Se Peg também fez você pensar nas oportunidades que recusamos antes mesmo de saber a resposta, compartilhe este texto com alguém que já precisou descobrir que ocupar espaço não é o mesmo que incomodar.


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