Solos: Leah e a tentativa de escapar do presente

Leah dedica anos à possibilidade de viajar no tempo para salvar a mãe. Quando finalmente conversa com o passado e o futuro, descobre que sua pesquisa também escondia um desejo bem menos heroico: não precisar atravessar a dor do presente.


No primeiro episódio de Solos, Leah trabalha no porão da casa da mãe tentando estabelecer uma comunicação através do tempo.

A experiência parece ter uma justificativa clara. Sua mãe enfrenta uma doença degenerativa, e Leah acredita que o futuro poderá oferecer uma cura que ainda não existe.

O projeto científico também lhe permite permanecer afastada do quarto, dos cuidados diários e da experiência de acompanhar alguém que ama perder progressivamente a autonomia.

Quando a máquina finalmente funciona, Leah não encontra apenas uma resposta. Encontra versões de si mesma que conhecem o preço de suas escolhas.

• Este texto faz parte de uma análise dos sete episódios de Solos. Para entender como as histórias estão conectadas, comece pelo guia geral da série.

O que acontece no episódio Leah?

Leah consegue se comunicar primeiro com uma versão mais jovem de si mesma. Em seguida, descobre que outra mulher na tela está alguns anos à sua frente.

As três Leahs ocupam momentos diferentes da mesma vida:

  • A mais jovem ainda não sabe que a mãe adoecerá;
  • A Leah do presente abandonou os estudos para cuidar dela;
  • A versão futura já vive com o arrependimento pelas decisões tomadas durante esse período.

A cientista afirma que deseja avançar no tempo para encontrar uma cura para a esclerose lateral amiotrófica.

Sua versão futura percebe uma contradição: se o objetivo é procurar uma solução médica, por que viajar apenas alguns anos?

Pressionada, Leah admite que não quer somente salvar a mãe. Ela também quer que aquela fase termine.

A doença reorganizou sua vida. O relacionamento acabou, a carreira foi interrompida e os dias passaram a ser definidos pelos cuidados.

Ir ao futuro permitiria saltar justamente o período que ela já não consegue suportar.

Por que Leah conversa com versões de si mesma?

As três versões não representam personalidades diferentes. Elas mostram como uma decisão muda de sentido dependendo do momento em que é observada.

A Leah mais jovem ainda pode evitar o caminho que levou as outras ao arrependimento. A do presente tenta justificar suas escolhas como sacrifício necessário. A do futuro sabe que a fuga não eliminou a culpa.

O episódio transforma o diálogo temporal numa discussão entre:

  • Quem ainda não viveu a perda;
  • Quem deseja escapar dela;
  • Quem já conhece as consequências da fuga.

A versão futura tenta impedir que o ciclo continue.

Para ela, permanecer ao lado da mãe durante o tempo disponível teria sido doloroso, mas menos devastador do que descobrir depois que os últimos momentos não podem ser recuperados.

Leah procura controlar o tempo porque não consegue controlar a doença. Sua pesquisa oferece uma tarefa concreta diante de uma situação em que dedicação e inteligência não garantem resultado.

O que significa o final de Leah?

No final, Leah fornece à sua versão mais jovem informações que poderão alterar toda a sequência de acontecimentos.

A nova possibilidade é simples: conhecer antecipadamente a doença permitirá buscar outro caminho e permanecer mais próxima da mãe.

Se a linha temporal mudar, as versões presente e futura de Leah deixarão de existir como as conhecemos.

Antes de desaparecer, Leah telefona para a mãe. Em vez de discutir tratamento, temperatura do quarto ou funcionamento da máquina, pede que ela cante uma música de sua infância.

A cena não apresenta uma solução para a doença. Ela devolve valor a algo que Leah passou a tratar como secundário: o tempo compartilhado enquanto ainda existe.

A máquina funciona, mas sua maior descoberta não é científica. Leah percebe que o futuro não poderá restituir aquilo que ela abandonou no presente.

Uma leitura filosófica possível: Sêneca e a vida adiada

A história de Leah permite uma aproximação com Sobre a brevidade da vida, de Sêneca.

O filósofo estoico argumenta que a vida não é necessariamente curta; grande parte dela se perde porque tratamos o presente como uma preparação para o futuro.

Vivemos ocupados com aquilo que virá e percebemos tarde demais o tempo que deixou de ser vivido.

Leah transforma essa atitude numa máquina. Ela sacrifica os dias disponíveis pela promessa de um amanhã em que o sofrimento já terá terminado.

Essa aproximação não significa que o episódio tenha sido escrito como adaptação de Sêneca.

O conceito apenas ajuda a iluminar seu conflito: ao tentar ganhar tempo no futuro, Leah deixa de reconhecer o valor do tempo que ainda possui com a mãe.

O tempo que não pode ser recuperado

Leah não é apresentada apenas como uma filha egoísta. Cuidar da mãe a exaure, limita sua vida e a coloca diante de uma perda que se prolonga diariamente.

Seu erro está em transformar a fuga numa missão heroica e esconder de si mesma o que realmente deseja.

O episódio reconhece que amar alguém não torna o sofrimento simples nem torna o cuidador inesgotável.

Também mostra que preencher todos os dias com a tentativa de resolver o futuro pode retirar espaço da relação que ainda existe no presente.

→ No próximo episódio, Tom tenta preparar um duplicado tecnológico para ocupar seu lugar depois da morte.


Se Leah também fez você pensar no tempo que deixamos para depois, compartilhe este texto com alguém que já percebeu que certas presenças não podem ser recuperadas quando o amanhã finalmente chega.


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