Nosedive, de Black Mirror: o que acontece quando a vida depende de uma nota?

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Lacie tem 4,2 e precisa de 4,5 para mudar de vida. Em Nosedive, Black Mirror imagina um mundo em que cada sorriso vale uma nota, e mostra o que sobra quando a nota despenca.


Nosedive (Queda Livre) abre a terceira temporada de Black Mirror com uma cidade em tons pastel, sorrisos ensaiados e uma nota de uma a cinco estrelas acompanhando cada pessoa.

Bryce Dallas Howard vive Lacie. A história é de Charlie Brooker, o roteiro é de Michael Schur e Rashida Jones, e a direção é de Joe Wright. Daqui em diante, o texto conta tudo, inclusive o final.

Do que se trata Nosedive?

No mundo do episódio, as pessoas se avaliam o tempo todo, de uma a cinco estrelas, pelo celular e por implantes nos olhos. A média de cada um aparece ao lado do rosto, visível para quem passa.

A nota decide muito mais do que popularidade:

  • moradia: Lacie precisa de 4,5 para ter desconto num condomínio de luxo;
  • transporte: para remarcar um voo cancelado, a exigência é de 4,2 ou mais;
  • convívio: os convidados do casamento da amiga dela têm todos 4,7 ou mais;
  • saúde: uma personagem perdeu o marido porque a nota dele era baixa demais para o tratamento.

Lacie tem 4,2, uma nota respeitável. Mesmo assim, quer mais.

Por que Lacie quer tanto subir de nota?

O contrato de aluguel de Lacie está acabando, e o apartamento dos sonhos exige 4,5. Então chega um convite: Naomi, amiga de infância com nota 4,8, chama Lacie para ser madrinha do casamento.

Logo no começo, Lacie ensaia diante do espelho uma risada que pareça espontânea. Howard contou que a risada foi exagerada de propósito, porque sorrisos e gargalhadas também servem para esconder o que a pessoa sente.

O plano parece perfeito. Um discurso emocionante diante de convidados de nota alta deve render avaliações valiosas e empurrar a média para cima.

Repare no que Lacie está fazendo. Ela trata as relações como investimento, escolhendo quem vale a pena agradar pelo peso da nota de cada um. A Sociologia tem um nome para o valor que circula nas redes de relações: capital social. Em Nosedive, esse capital sai da sombra e vira número na tela.

Como a nota de Lacie despenca?

No dia da viagem, tudo dá errado em sequência. Pequenos atritos derrubam a média dela para 4,183. Cada contratempo vira uma avaliação ruim, e cada avaliação ruim prepara o contratempo seguinte. O voo é cancelado, e a remarcação exige 4,2.

Lacie perde a paciência no aeroporto. A segurança aplica uma punição: por 24 horas, cada avaliação negativa vale em dobro, e ela perde um ponto inteiro na hora.

O carro alugado é antigo e não pode ser recarregado. Sem alternativa, Lacie pede carona a Susan, uma caminhoneira com nota 1,4.

Quem é Susan?

Susan já teve 4,6. O marido dela teve câncer e ficou sem um tratamento importante porque a nota dele não era alta o suficiente.

Depois disso, Susan desistiu de agradar. Fala o que pensa, xinga quando quer e parece mais livre do que qualquer pessoa de nota alta no episódio. Ela oferece a Lacie a única conversa honesta da viagem, sobre perda, cansaço e o preço de viver tentando agradar.

E aqui vale prestar atenção no papel dela na história. Susan é a primeira pessoa que trata Lacie sem calcular o que ganha com isso.

Como termina Nosedive?

Naomi, preocupada com a própria média, pede que Lacie não vá ao casamento. Lacie vai mesmo assim, entra escondida e faz um discurso que expõe a amiga diante de todos. Os convidados reagem com avaliações negativas, e a nota dela cai abaixo de um.

Lacie é presa, e os implantes dos olhos são removidos. Na cela da frente, um homem também está fora do sistema. Os dois começam a trocar xingamentos, cada vez mais criativos, e riem.

Repare na inversão final. Sem nota e sem plateia, Lacie fala com sinceridade pela primeira vez no episódio, e o que sai primeiro é um xingamento.

Para Bryce Dallas Howard, é um final de alívio: Lacie fica livre quando já não tem nada a perder com a rejeição.


Nosedive fala sobre redes sociais?

Fala, e de mais de um jeito. Os criadores do episódio apontaram paralelos bem concretos:

  • Avaliações do dia a dia: Howard lembrou que aplicativos de transporte, hospedagem e restaurantes já funcionam por estrelas, como contou ao The Hollywood Reporter.
  • Notas extremas: Brooker observou que as pessoas quase só dão a nota máxima ou a mínima, e que as redes recompensam os extremos.
  • A cobrança de simpatia: Rashida Jones apontou que mulheres são educadas para serem agradáveis, e que o vilão do episódio é uma cultura inteira, segundo a Slate.

Nosedive é o caso mais cotidiano de um tema que Black Mirror visita várias vezes, reunido no texto sobre desigualdade em Black Mirror. Os demais temas estão na página sobre Black Mirror.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – qual nota você daria para a sua última interação nas redes?

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