Altered Carbon: a imortalidade seria para todos?

Em Altered Carbon, a mente cabe num cartucho e o corpo vira roupa de troca. A imortalidade existe na série, e a pergunta que fica é quem pode pagar por ela e o que faz com séculos de poder.


Ficha Resumida

– Título original: Altered Carbon
– Duração: 2 temporadas, 18 episódios
– Ano: 2018–2020
– País: Estados Unidos
– Criação: Laeta Kalogridis, com base no romance de Richard K. Morgan
– Distribuição: Netflix

Do que trata Altered Carbon?

No século XXIV, quase todo mundo carrega um pequeno dispositivo implantado na nuca, junto à coluna: o cartucho cortical.

Ele guarda memórias, personalidade e consciência. Se o corpo morre, o cartucho pode ser instalado em outro corpo, que a série chama de capa.

Takeshi Kovacs, um antigo soldado rebelde, é despertado cerca de 250 anos depois da própria morte, numa capa nova. Quem paga é Laurens Bancroft, um milionário assassinado que voltou graças a um backup feito antes do crime, e quer saber quem o matou.

É uma história policial no figurino do cyberpunk, a vertente que junta alta tecnologia e vida precária, como mostra o texto sobre as vertentes punk no cinema. O melhor da série aparece quando ela leva a sério a própria invenção: se a morte fica reversível, fica reversível para quem?

Dá para copiar a consciência para um arquivo?

Hoje, não. E a distância é enorme.

A neurociência procura há décadas o rastro físico das lembranças, os chamados engramas. Uma revisão sobre o armazenamento da memória mostra que esse rastro fica distribuído em conjuntos de células de várias regiões do cérebro, ligadas entre si.

Repare no tamanho do salto. Localizar células que participam de uma lembrança está muito longe de extrair uma vida inteira, convertê-la em dados e restaurá-la em outro cérebro.

Uma cópia da mente continuaria sendo você?

Imagine que uma cópia perfeita das suas memórias acorde em outro corpo. Ela lembraria da sua infância, reconheceria seus amigos e teria certeza de ser você.

Isso provaria que a sua consciência foi transferida, ou só que apareceu outra consciência com as mesmas lembranças?

A dúvida fica clara quando duas cópias acordam ao mesmo tempo. Começam com o mesmo passado e, dali em diante, vivem coisas diferentes. Já são duas pessoas.

Altered Carbon explora isso com backups, cópias ilegais e personagens que trocam de capa. É o mesmo problema de Solos: Tom e do texto sobre identidade digital em Black Mirror: guardar as memórias de alguém conserva a informação, e a sobrevivência da pessoa original continua em aberto.

O corpo é só uma capa?

A série chama o corpo de capa, como se fosse embalagem, e o próprio enredo desmente a palavra. Quem acorda numa capa nova recebe outra força, outra idade e problemas de saúde que não escolheu, e precisa reaprender o próprio corpo.

Uma coletânea da Scientific Reports sobre o corpo e o eu reúne estudos mostrando que a experiência de ser alguém depende também de sinais do organismo, do movimento e da posição do corpo.

E aqui vale prestar atenção no vocabulário. Chamar corpo de capa serve ao mercado da série, que compra, aluga e revende corpos. Tratar uma pessoa como simples meio é exatamente o que o imperativo categórico de Kant proíbe.

Quem pode pagar pela imortalidade em Altered Carbon?

Quase todo mundo tem cartucho. Pouca gente tem dinheiro para corpos de qualidade, cópias frequentes e armazenamento protegido.

Os mais ricos são os Meths, nome tirado de Matusalém. Vivem séculos em corpos jovens, feitos ou escolhidos para eles. Para o resto, voltar à vida pode significar acordar numa capa velha, doente ou inadequada.

É o ponto mais convincente da série, porque parte de uma desigualdade que já existe. Na Inglaterra, segundo o escritório nacional de estatística britânico, homens das áreas mais pobres vivem em média 9,7 anos menos que os das áreas mais ricas; entre as mulheres, a diferença é de 7,9 anos.

A série estica essa distância até o limite. O mesmo desejo de comprar tempo aparece, sem ficção nenhuma, no documentário sobre Bryan Johnson e a longevidade.

Some ainda a herança: a fortuna fica com a mesma pessoa por séculos, e as novas gerações encontram o futuro já ocupado. Daí as perguntas que a série levanta, nem sempre até o fim:

  • quem decide quem tem direito a backup;
  • se um condenado perde só a liberdade ou também a chance de voltar;
  • se destruir um cartucho é homicídio e destruir uma capa é só dano material.

O texto sobre desigualdade em Black Mirror chega por outro caminho à mesma pergunta: quem decide quem merece ser tratado como gente.

O que Altered Carbon acerta e inventa?

  • Acerta: memórias dependem de mudanças físicas no cérebro, distribuídas em muitas regiões.
  • Acerta: identidade envolve memória, corpo e continuidade da experiência.
  • Acerta: desigualdade de renda já produz diferença mensurável de anos de vida.
  • Inventa: cartuchos corticais, cópias completas da mente e transmissão da consciência.
  • Deixa em aberto: se uma cópia perfeita seria a mesma pessoa.

Vale a pena assistir Altered Carbon?

Vale, sobretudo pela primeira temporada, que usa um assassinato para apresentar um mundo onde morrer e continuar morto são coisas diferentes.

  • Para quem gosta de ficção científica – identidade, memória, religião e desigualdade cabem numa história policial.
  • Para quem já assistiu – vale rever prestando atenção na economia das capas, mais interessante que o próprio crime.

Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – a imortalidade ainda pareceria um avanço se só os mais ricos pudessem pagar por ela?


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