Um homem mergulha todos os dias no mesmo trecho de mar e acompanha a vida de um polvo durante um ano. O Oscar veio. Mas a pergunta que o filme levanta vale bem mais.
My Octopus Teacher (2020) é um documentário sul-africano de 85 minutos dirigido por Pippa Ehrlich e James Reed, disponível na Netflix.
O filme acompanha o cineasta e naturalista Craig Foster durante um ano de mergulhos diários numa floresta de kelp em False Bay, perto da Cidade do Cabo, onde ele estabelece contato repetido com uma fêmea de polvo.
Ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 2021.
A floresta submersa
O cenário é tão protagonista quanto o polvo.
A Great African Sea Forest é um ecossistema de algas kelp que se estende por mais de mil quilômetros ao longo da costa sul-africana.
A água fica entre 8 e 15 °C. Foster mergulha sem roupa de neoprene — uma escolha que ele descreve como forma de sentir o ambiente sem barreiras.
O documentário dedica tempo a esse bioma com uma beleza visual que justifica a tela grande. Cardumes em sincronia, tubarões-pijama no fundo, anêmonas se abrindo com a corrente.
Mas a floresta não está ali como cenário decorativo. É o ambiente que torna possível a complexidade comportamental do polvo — esconderijos, camuflagem, emboscadas, fuga. Sem esse habitat, o filme não existiria.
Se você não conhece esse ecossistema, vale explorar o trabalho que Foster e sua equipe fazem fora das câmeras.
O Sea Change Project, cofundado por ele em 2012, combina pesquisa, conservação e produção audiovisual para proteger as florestas de kelp — um bioma que perdeu mais da metade da sua extensão global nos últimos cinquenta anos.
O polvo
O que torna o documentário relevante para além da fotografia é o comportamento que ele registra.
Ao longo de um ano de visitas diárias, Foster documenta a fêmea de polvo fazendo coisas que complicam qualquer definição simples de inteligência animal:
Camuflagem ativa
O polvo muda de cor, textura e forma em frações de segundo para se confundir com rochas, algas e conchas. O documentário mostra situações em que a camuflagem parece responder a ameaças específicas, sugerindo avaliação do ambiente.
Uso de ferramentas
Em uma das cenas mais marcantes, o animal reúne conchas ao redor do corpo como armadura improvisada contra um tubarão-pijama. Uso de ferramentas é um dos marcadores clássicos de cognição complexa na etologia.
Mudança de comportamento
Ao longo das semanas, o polvo passa a tolerar a presença de Foster, aproximando-se e eventualmente tocando-o. O filme registra essa mudança gradual sem explicá-la — e essa ausência é, paradoxalmente, o que torna a cena tão viva.
A pesquisa sobre cognição de cefalópodes avança em paralelo ao filme.
Um estudo publicado na iScience em 2021 demonstrou que polvos exibem comportamentos indicativos de experiência afetiva de dor — evitando contextos associados a estímulos negativos e preferindo locais onde obtiveram alívio.
O resultado sugere algo análogo a estados emocionais, embora a extrapolação para “emoções” no sentido humano continue em debate.
O problema do filme
Foster narra tudo em primeira pessoa, com tom confessional. Descreve a relação com o polvo usando linguagem emocional: “vínculo”, “confiança”, “lição”.
O polvo vira professora. Foster vira aluno. A narrativa é estruturada como redenção pessoal — um homem em crise que encontra sentido ao submergir.
Repare no que isso implica:
- Foster seleciona, narra e interpreta as imagens.
- O espectador vê o polvo através dos olhos de alguém emocionalmente investido na relação.
- Não há contraposição — nenhum biólogo marinho oferece leitura alternativa, nenhum etólogo contextualiza os comportamentos dentro da literatura.
A pergunta que o filme levanta é uma das mais antigas da filosofia da ciência: observação participante é método? Quando o observador está emocionalmente envolvido com o que observa, o que acontece com a confiabilidade do relato?
Em uma entrevista à Time, Foster reconhece que não partiu com a intenção de fazer um filme. O objetivo era entender o ecossistema.
O polvo apareceu no caminho — e o envolvimento emocional veio junto. Foster não finge neutralidade. E essa honestidade, curiosamente, é o que salva o documentário do próprio problema que ele cria.
Entre a experiência e a evidência
O dilema não tem resposta simples — e é por isso que o filme pode funcionar em sala de aula, por exemplo.
De um lado, a observação de longo prazo tem valor real. A etologia de campo, desde Jane Goodall com chimpanzés até Cynthia Moss com elefantes, depende exatamente desse tipo de imersão prolongada.
Muitos comportamentos só aparecem quando o observador é parte do ambiente.
De outro, a ausência de controle experimental limita o que se pode concluir:
- Quando Foster diz que o polvo “confia” nele, isso é interpretação.
- A diferença entre interpretação e evidência é o que separa um relato pessoal de um dado científico.
- O polvo pode estar simplesmente habituado à presença de um objeto grande e inofensivo — o que é muito diferente de confiança, mas produz o mesmo comportamento observável.
O documentário vale mais quando assistido com essa dupla lente: a experiência de Foster é genuína e visualmente extraordinária.
A conclusão que ele tira dessa experiência é dele — e o espectador faz bem em separar as duas coisas.
My Octopus Teacher ganhou o Oscar por boas razões: é bonito, é emocional, e mostra um animal fazendo coisas que a maioria das pessoas não imaginava que um polvo pudesse fazer.
Mas a maior contribuição do filme talvez seja involuntária — ele demonstra, em 85 minutos, como é difícil observar sem projetar.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe — especialmente se você saiu do filme achando que o polvo gostava do Foster e agora está reconsiderando.
