Apagar cookies não significa necessariamente começar do zero. Seu navegador continua revelando pequenas características do dispositivo — resolução de tela, idioma, hardware, fontes, fuso horário e outras. Combinadas, elas podem formar uma impressão digital capaz de distinguir um acesso de muitos outros.
Apagar os cookies não faz seu navegador esquecer quem ele é
Cookies são uma das formas mais conhecidas de acompanhar alguém na internet. Um site armazena uma pequena informação no navegador e pode recuperá-la depois para lembrar que aquele visitante já esteve ali.
O browser fingerprinting funciona de outro jeito.
Em vez de depender apenas de uma identificação armazenada, o site observa características que o navegador e o dispositivo apresentam durante a navegação.
Um cookie é como entregar uma ficha numerada ao visitante e pedir que ele a apresente quando voltar.
No fingerprinting, ninguém precisa entregar a ficha. O visitante é reconhecido pela combinação de características que traz consigo.
Essa identificação não significa necessariamente descobrir nome, CPF ou endereço. Muitas vezes, o objetivo é algo mais simples: perceber que aquele navegador provavelmente é o mesmo que apareceu antes.
A Electronic Frontier Foundation demonstra esse princípio no projeto Cover Your Tracks, que permite verificar o quanto determinadas características tornam um navegador distinguível em relação a outros.
Como informações comuns formam uma impressão digital
Nenhuma dessas informações precisa ser particularmente reveladora sozinha. O poder está na combinação.
Entre os sinais que podem entrar numa impressão digital estão:
- resolução e tamanho da tela;
- idioma e fuso horário;
- sistema operacional e navegador;
- fontes disponíveis;
- número de núcleos do processador;
- informações sobre memória e hardware;
- recursos gráficos disponibilizados por WebGL e WebGPU;
- diferenças na forma como imagens, gráficos e áudio são processados.
Imagine milhões de pessoas usando a mesma versão de um navegador. Isso parece bastante anônimo.
Agora acrescente determinada resolução, um sistema operacional específico, um conjunto menos comum de fontes, determinada GPU, fuso horário, idioma e pequenas diferenças produzidas pelo hardware.
A multidão começa a diminuir.
É essa lógica combinatória que torna o fingerprinting interessante — e problemático para a privacidade.
Até um desenho pode ajudar a reconhecer o navegador
Um exemplo conhecido é o canvas fingerprinting.
O navegador recebe instruções para desenhar uma imagem ou texto em uma área invisível da página.
O resultado pode sofrer pequenas variações conforme navegador, sistema operacional, placa gráfica e outros componentes.
Para uma pessoa olhando a tela, talvez não exista diferença perceptível. Para um sistema comparando resultados, essas pequenas variações podem funcionar como mais um sinal.
Algo semelhante pode acontecer com áudio.
E foi justamente isso que colocou o assunto novamente em evidência em agosto de 2026.
O que aconteceu com o áudio do AliExpress?
Um desenvolvedor percebeu algo estranho: ao abrir o AliExpress, seus fones Bluetooth se comportavam de maneira diferente.
A investigação relatada pela Ars Technica encontrou código utilizando a Web Audio API para gerar e processar um sinal que permanecia inaudível para o usuário.
É importante fazer uma distinção: isso não significa que o site estivesse ouvindo o ambiente pelo microfone.
O procedimento produzia áudio internamente e analisava como navegador e dispositivo o processavam. Diferenças nos resultados podem acrescentar outra característica à impressão digital.
A Malwarebytes também destacou essa diferença: produzir e analisar um sinal de áudio não é o mesmo que gravar aquilo que está acontecendo ao redor do computador.
O caso chama atenção porque torna concreto um mecanismo normalmente invisível. Uma tecnologia criada para permitir aplicações de áudio na web também pode fornecer informações úteis para diferenciar dispositivos.
É um bom exemplo de como a arquitetura tecnológica pode gerar usos que vão além daqueles percebidos pelo usuário — questão que já apareceu por aqui quando discutimos tecnologia, poder e as escolhas incorporadas aos artefatos.
E o modo anônimo?
Também não resolve tudo.
A navegação anônima ou privativa é muito útil para evitar que histórico, cookies e outros dados daquela sessão permaneçam armazenados normalmente no próprio computador.
Mas ela não transforma automaticamente o dispositivo em um navegador genérico e indistinguível.
Resolução da tela, características de hardware e outras informações continuam podendo ser observadas.
A própria EFF explica no Cover Your Tracks que a navegação privativa não foi originalmente criada como uma proteção completa contra fingerprinting.
Em outras palavras: esconder o histórico de quem usa o mesmo computador e impedir que um site tente reconhecer o dispositivo são problemas diferentes.
Os navegadores começaram a reagir
Hoje, navegadores tentam reduzir esse tipo de identificação por caminhos diferentes.
O Firefox possui proteções específicas contra fingerprinting, limitando ou padronizando determinadas informações disponibilizadas às páginas.
O Brave segue uma estratégia ainda mais agressiva em algumas áreas. Em agosto de 2026, anunciou novas proteções relacionadas a informações de GPU e drivers gráficos.
Existe, porém, uma dificuldade inevitável.
Um navegador precisa revelar certas informações para que sites funcionem. Jogos precisam acessar recursos gráficos. Aplicações precisam conhecer capacidades do dispositivo. Vídeos e áudio dependem de APIs específicas.
A mesma informação que permite uma experiência melhor pode também aumentar a capacidade de distinguir um usuário de outro.
Por isso, privacidade na internet não cabe mais apenas naquela pergunta conhecida: “aceitar ou rejeitar cookies?”
Às vezes, nenhum identificador precisa ser deixado no computador.
O próprio navegador já chega carregando pistas suficientes para ser reconhecido.
