Grifar ajuda a estudar? Quando o marca texto ajuda e quando atrapalha

Grifar pode ajudar a selecionar informações importantes e facilitar uma revisão posterior. O problema aparece quando o marca texto vira o próprio estudo: a página ganha cor, mas o estudante pouco faz com aquilo que destacou.


O que as pesquisas dizem sobre grifar?

Grifar é uma das práticas mais comuns entre estudantes. É rápida, simples e deixa uma sensação concreta de progresso.

Mas essa sensação nem sempre corresponde à aprendizagem.

Em 2013, John Dunlosky e colaboradores publicaram uma ampla revisão sobre dez técnicas de estudo.

O trabalho classificou grifar e sublinhar como estratégias de baixa utilidade quando usadas isoladamente, principalmente porque os resultados disponíveis eram inconsistentes e dependiam bastante de como o estudante selecionava o conteúdo.

Isso não significa que o marca-texto seja inútil.

Uma meta-análise publicada em 2022 reuniu 36 estudos sobre destaque de informações em textos.

Quando os próprios estudantes escolhiam o que marcar, houve benefício para a memória das informações, enquanto o efeito sobre compreensão foi bem menos consistente.

A consequência prática é simples: grifar pode ajudar a selecionar e reencontrar informações. Compreender o assunto exige algo além da seleção.

O problema de grifar cedo demais

Imagine começar um capítulo sobre um tema que você conhece pouco. Nos primeiros parágrafos, quase tudo parece importante.

Uma definição recebe marca-texto. Depois vem um exemplo. Logo aparece uma explicação que também parece essencial. Ao final, metade da página está colorida.

O destaque perdeu sua função.

Para selecionar bem, precisamos primeiro perceber minimamente a estrutura do texto. Por isso, costuma funcionar melhor ler um trecho completo e só então decidir o que merece ser marcado.

Não é preciso terminar o capítulo inteiro antes de pegar o marca-texto. Basta evitar transformar o grifo numa reação automática à leitura.

O que vale a pena destacar?

Não existe uma porcentagem ideal da página.

O critério mais útil é perguntar qual função aquele destaque terá quando você voltar ao material.

Vale marcar, por exemplo:

  • uma definição central;
  • uma diferença entre conceitos parecidos;
  • uma relação de causa e consequência;
  • uma etapa importante de um processo;
  • uma informação que costuma ser confundida.

Se quase todo o parágrafo precisa ser colorido para continuar fazendo sentido, talvez seja melhor destacar apenas a expressão central ou fazer uma pequena anotação ao lado.

Grifar muito não significa grifar melhor

Um estudo de Carole Yue e colaboradores acompanhou estudantes que leram textos usando ou não marca texto e fizeram um teste uma semana depois.

Em determinadas condições, o destaque melhorou a recordação das informações marcadas sem prejudicar as não marcadas.

O resultado mostra que destacar pode ter valor. Também reforça que o benefício depende do uso.

O marca texto funciona por contraste.

Se duas frases estão destacadas, elas chamam atenção. Se quase toda a página está amarela, o contraste desaparece.

Mais importante: escolher pouco obriga o estudante a decidir o que realmente importa.

O grifo pode enganar na revisão

Há outra armadilha.

Ao voltar a uma página marcada, a informação está diante dos olhos. Ela parece familiar, e essa familiaridade pode ser confundida com domínio.

Uma maneira simples de evitar isso é transformar o grifo em ponto de partida para outra atividade.

Depois de ler um trecho destacado, cubra o texto e tente responder:

O que isso significa?

Por que essa informação é importante?

Consigo dar um exemplo?

Nesse momento, o estudante deixa de apenas reconhecer a informação e passa a tentar recuperá-la. É a lógica da prática de recuperação.

Um exemplo simples

Imagine que você tenha destacado:

“A inflação corresponde a um aumento persistente e generalizado do nível de preços.”

Na revisão, não basta reler a frase.

Feche o material e tente explicar por que o aumento do preço de um único produto não caracteriza, sozinho, inflação. Depois pense em um exemplo que diferencie uma alta pontual de um processo inflacionário.

O destaque localizou a ideia importante. O trabalho posterior construiu a compreensão.

E as várias cores?

Podem ajudar, desde que exista uma lógica simples.

Uma cor pode marcar conceitos; outra, dúvidas ou pontos que precisam de revisão. O sistema perde utilidade quando o estudante precisa administrar cinco ou seis categorias antes de decidir o que a frase significa.

O objetivo continua sendo compreender o texto, não organizar uma coleção de marca-textos.

Como usar o grifo de forma mais útil

Uma rotina simples costuma ser suficiente:

  1. Leia um trecho antes de marcar.
  2. Destaque apenas o que terá utilidade numa revisão.
  3. Volte aos trechos marcados depois.
  4. Tente explicar ou responder sem olhar para eles.
  5. Use os destaques para orientar outras atividades, como um resumo feito com suas próprias palavras ou perguntas de revisão.

Assim, grifar deixa de ser o fim do estudo e passa a cumprir uma função específica: selecionar informações que serão trabalhadas novamente.

Então, grifar ajuda a estudar?

Pode ajudar.

As pesquisas não justificam tratar o marca texto como uma técnica poderosa por si só, mas também não sustentam a ideia de que ele seja simplesmente inútil.

O uso mais produtivo é bastante modesto: selecionar, organizar e facilitar o reencontro com informações importantes.

Se a página inteira ganhou cor e você ainda não consegue explicar o assunto sem olhar para ela, o problema provavelmente não está na cor escolhida.

Está no que ainda falta fazer depois de grifar.


Se conhece alguém que transforma cada capítulo numa competição entre quatro marca textos, compartilhe este texto. Talvez uma das cores sobreviva.


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