Grifar ajuda a estudar? Quando o marca-texto ajuda e quando atrapalha

Grifar pode ajudar quando orienta a leitura e prepara uma revisão ativa. O problema começa quando o estudante transforma o marca-texto em prova de estudo: a página fica colorida, mas a compreensão continua frágil.


Grifar é uma das práticas mais comuns entre estudantes.

Basta abrir o livro, pegar o marca-texto e começar a destacar frases que parecem importantes. Em poucos minutos, a página ganha cor, o material parece organizado e surge a sensação de que o conteúdo foi dominado.

Essa sensação, porém, pode enganar.

O risco de grifar sem entender

Muitos estudantes começam a grifar na primeira leitura, antes de compreender a estrutura do texto.

Nesse momento, quase tudo parece importante: definições, exemplos, dados, frases longas, palavras difíceis e trechos com “cara de prova”.

O resultado é previsível: metade da página marcada.

Esse excesso enfraquece a função do grifo. O destaque só funciona porque separa algo do restante. Quando quase tudo está marcado, nada se destaca de verdade.

O texto vira uma feira de cores, mas não necessariamente um material melhor para estudar.

Além disso, o grifo pode criar uma falsa sensação de domínio. Ao reler um trecho marcado, o estudante reconhece a frase e sente familiaridade com o conteúdo.

Só que reconhecer não é o mesmo que lembrar.

Esse ponto conversa diretamente com a prática de recuperação, que mostra a importância de tentar recuperar a informação da memória, sem depender o tempo todo do material aberto.

Aprender exige mais do que reencontrar frases conhecidas. É preciso explicar, relacionar, aplicar e lembrar depois.

O que a pesquisa mostra sobre o grifo

A revisão de Dunlosky e colaboradores sobre técnicas de aprendizagem avaliou diferentes estratégias de estudo, como releitura, resumo, grifo, prática de testes, prática distribuída e intercalação.

Nessa análise, grifar e sublinhar aparecem como técnicas de baixa utilidade quando usadas isoladamente.

Isso não transforma o marca-texto em vilão. O ponto é mais simples: grifar, sozinho, costuma produzir pouco.

O estudante marca uma frase, passa para a próxima, marca outra, termina o capítulo e acredita que revisou. Faltou a etapa mais importante: fazer alguma coisa com o trecho destacado.

O The Learning Scientists, projeto de divulgação científica sobre aprendizagem, também trata o grifo com cautela.

Ele pode ser útil como primeiro passo, especialmente quando ajuda a selecionar termos, conceitos ou trechos que depois serão transformados em perguntas, flashcards, explicações ou exercícios de recuperação.

Portanto, o problema não está no grifo em si. Está no uso preguiçoso do grifo.

Quando grifar ajuda

Grifar ajuda quando o estudante sabe por que está destacando aquele trecho.

Um bom grifo costuma marcar a ideia central de um parágrafo, uma definição importante, uma relação de causa e consequência, uma diferença entre conceitos, um exemplo esclarecedor ou uma dúvida que precisa ser retomada depois.

Nesses casos, o marca-texto não funciona como decoração. Ele funciona como sinalização.

Um trecho grifado deveria indicar algo como: “volte aqui”, “isso explica o conceito”, “isso pode cair em uma pergunta”, “isso precisa virar resumo” ou “isso se conecta com outro ponto do conteúdo”.

Quando grifar atrapalha

Grifar atrapalha quando substitui outras ações mais importantes.

Isso acontece quando o estudante usa o grifo para evitar o resumo, para fugir da resolução de questões ou para adiar a revisão real.

Ele marca o texto, fecha o material e sente que cumpriu sua parte. No dia seguinte, ao tentar explicar o conteúdo, percebe que os destaques não bastam.

Também atrapalha quando o estudante grifa frases inteiras sem critério.

Em muitos casos, seria melhor destacar apenas palavras-chave ou expressões centrais. Uma página com poucos grifos bem escolhidos costuma valer mais do que uma página quase inteira amarela.

No texto sobre como fazer resumo para estudar, a ideia central é que o resumo não deve ser uma cópia menor do material original. Algo parecido vale aqui: o grifo não deve ser uma cópia colorida do texto.

Como usar o grifo com método

Uma forma simples de melhorar o uso do marca-texto é separar leitura e marcação.

Na primeira leitura, leia para entender o assunto. Observe o tema, os conceitos principais, os exemplos e a organização do argumento.

Na segunda leitura, grife com critério. Depois de entender o caminho do texto, fica mais fácil distinguir o essencial do acessório.

Em seguida, transforme os grifos em atividade. Um trecho marcado pode virar uma pergunta, uma explicação com palavras próprias, um exemplo, um pequeno resumo ou um item de revisão.

Por exemplo, em vez de apenas grifar uma definição, o estudante pode escrever ao lado: “Como eu explicaria isso sem olhar?”

Essa pequena mudança aproxima o grifo da recuperação ativa e da repetição espaçada, porque o destaque passa a orientar revisões futuras.

O grifo bom não encerra o estudo. Ele prepara o próximo passo.

Um exemplo simples

Imagine um estudante lendo a frase:

“A eficiência logística depende da integração entre transporte, armazenagem, informação e gestão de custos.”

Um uso fraco seria grifar a frase inteira e seguir adiante.

Um uso melhor seria destacar apenas os elementos centrais: transporte, armazenagem, informação e gestão de custos.

Depois, o estudante poderia transformar o trecho em perguntas:

Como esses elementos se relacionam?
Por que transporte sozinho não explica a logística?
Que exemplo mostra a integração entre informação e redução de custos?

Nesse momento, o marca-texto deixou de ser enfeite. Ele virou ferramenta de estudo.

Lembre-se: o marca-texto não estuda por ninguém

Grifar pode ajudar a estudar, mas apenas quando o estudante usa o destaque como ponto de partida.

O trecho marcado precisa virar pergunta, resumo, explicação, revisão ou exercício.

Quando o grifo termina nele mesmo, o ganho é pequeno. A página fica mais bonita, mas a memória não trabalha o suficiente.


O marca-texto é uma ferramenta útil, desde que permaneça no seu lugar.

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